01/09/2010
Publicado em: Recortes do Dia | Texto de Carlos Chaparro

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 O “milagre Dilma” (2)

O perigoso poder
da demagogia

Para o enlace das idéias, na continuidade da análise sobre o “milagre” Dilma, transcrevo o parágrafo final do texto anterior:

"Lula é um demagogo espetacular, vitorioso, avassalador, especialmente quando assume o alto de um palanque – e neste momento uso a palavra “demagogo”  no sentido que os gregos originalmente deram ao termo, o de condutor do povo. Saliente-se, entretanto, que o sucesso avassalador do demagogo se deve muito à empatia nata que ele agrega ao exercício político da demagogia. Uma empatia extraordinariamente eficaz, ainda que nem sempre sincera. Mas sobre empatia e demagogia (não só de Lula) escreveremos no próximo texto.   

Falemos, então, de demagogia. Começando, naturalmente, pela atualização  do significado político do termo – até porque não há como separar demagogia das práticas políticas nem dos conceitos que as explicam..

Nas sabedorias e nas ingenuidades da Grécia antiga (séculos XII a.C. – VIII a.C.), demagogos eram os condutores do povo (demos/povo, e gogia/condução). No caminhar da História, porém, a experiência humana de viver logo ensinou aos etimólogos que não passava de utopia o sentido atribuído à palavra, em sua raiz histórica.

Isso – vejam só! – porque desde sempre os líderes populares, em suas práticas políticas, logo caem na tentação de se servirem das massas, em vez de as servirem.

Assim, a verdade da experiência vivida foi agregando à palavra “demagogia” os significados pejorativos que atualmente a marcam. Platão deu contribuição preliminar a esse “enriquecimento polissêmico”, ao sentenciar que demagogo é aquele que chama boas às coisas que lhe agradam e más às coisas que detesta. Aristóteles (Política, livro V) foi além, ao acentuar que o demagogo utiliza a lisonja e os artifícios oratórios para alcançar seus fins, mesmo os ilícitos. Mais tarde, já no século XIX, Lincoln pôs o dedo na ferida maior, colando à palavra “demagogo” o sinônimo “enganador”. E o fez com uma frase-axioma ainda hoje de uso corrente:

”Pode-se enganar algumas pessoas o tempo todo; pode-s enganar todas as pessoas por algum tempo; mas não se pode enganar todas as pessoas o tempo todo”.

Pelos novos sentidos, demagogo é, inevitavelmente, um sujeito oportunista que, com alguma dose de hipocrisia, usa habilidades de oratória para manipular mentes e vontades, em favor dos seus objetivos. Muda de opinião sempre que conveniente, adaptando-se às circunstâncias de tempo e lugar, e delas tirando proveito.

No caso de Lula, dois recortes exemplares:

1) ANTES - Em tempos de FHC (a 9 de abril de 2003), quando era o grande líder da oposição, Lula proclamou de forma exaltada a seguinte “verdade” a trabalhadores do semiárido nordestino: “Antigamente, quando chovia, o povo logo corria para plantar o seu feijão, o seu milho, a sua macaxeira... Agora, tem gente que já não quer mais isso, porque fica esperando o ‘vale-isso’, o ‘vale-aquilo’(...)” – referindo-se aos programas sociais do governo da época. DEPOIS - Quando chegou à Presidência da República, Lula criou o Bolsa-Família e fez dele o carro-chefe do seu governo e a base expandida do seu poder eleitoral.

2) ANTES - Em 1979, no auge da liderança sindical, Lula disse a seguinte frase, num dos encontros que manteve com trabalhadores, durante a sua primeira viagem política ao Nordeste: “É inadmissível que o governo gaste tanto dinheiro em propaganda, quando o que falta é escola e melhores salários para os professores”. DEPOIS - Números do seu governo, divulgados pela imprensa, sem contestações: a) de 2003 a 2009, a Presidência da República, os ministérios e as estatais gastaram R$ 7,7 bilhões com propaganda; b) em 2009, só com a publicidade institucional da Presidência da República, foram gastos R$ 124 milhões.


* (Leia a parte final do texto clicando AQUI)

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27/08/2010
Publicado em: Recortes do Dia | Texto de Carlos Chaparro

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O "milagre" Dilma (1)

Sem Lula, ela
não teria discurso.
Nem votos.

A contragosto, assisti esta semana à propaganda eleitoral gratuita pela TV. Como detesto mentiras e mentirosos, só mesmo por dever de ofício fiz isso. Sei que nem todos compreenderão essa minha repulsa pela enganação política no horário da caça ao voto. Eis, porém, que o imortal José Sarney (quem diria!), também senador de abastada experiência em tais artes e artimanhas, veio em meu socorro, e me dá razão, no artigo que  nesta sexta-feira assinou na Folha de S. Paulo.

Discorrendo sobre as já indispensáveis pesquisas de opinião e suas decorrências marketeiras, escreveu Sarney:

“O resultado do conjunto das pesquisas orienta as manipulações: hora de bater, de informar, de distorcer, de exaltar, de alegrar, hora da razão, da emoção. (...) Para isso, haja dinheiro (...).”

Não há como contestar, até porque o homem é do ramo. Sabe do que fala.

Apesar disso, ou também por isso, achei de minha obrigação dar uma olhada de observador crítico nos jeitos e trejeitos da campanha pela TV, para depois colocar em texto a minha opinião.

É o que faço, aqui e agora – com prudências que respeitem o direito de cada um à livre decisão de escolher e votar; mas sem medos, nem de idéias e ajuizamentos, nem das palavras.

Começo por dizer que a imprensa se engana, e nos engana, quando esparrama manchetes do tipo “Dilma abre 20 pontos e já passa Serra em SP e RS”,  atribuindo à candidata o vigor eleitoral que já anuncia a possibilidade de vitória no primeiro turno.

Li até, na Folha,  um texto em que Fernando de Barros e Silva coloca Dilma no altar dos grandes campeões de votos, vencedores de eleições presidenciais no primeiro turno: FHC em 1998,  com 53%, e o marechal Dutra em 1945, com 55,4%. Na mais recente pesquisa do Datafolha, Dilma já alcançava 55% dos votos válidos. Com perceptível potencial para crescer ainda mais.

Olhei e escutei atentamente Dilma na televisão, observando o todo da figura, no  desempenho. E anotando detalhes. Pois lhes digo: Dilma Rousseff, essa que a televisão nos mostra, é uma candidata sem carisma e sem retórica minimamente  empolgante. Prolixa, não se expressa com clareza, porque lhe falta oratória sustentada em ênfases bem recortadas. E exibe gestual e semblante marcados por um artificialismo que o intenso treinamento imposto à candidata talvez tenha agravado.

Sei de boas fontes ser merecida a fama de gestora pública competente, que identifica politicamente Dilma Rousseff. Mas, como candidata, nada existe nela que explique esse poder de voto revelado pelas pesquisas.

Como explicar, então, o avassalador crescimento de Dilma Rousseff sobre o cacife eleitoral do tarimbado José Serra, superando-o no seu próprio reduto, onde ele sempre ganhou? Que  milagre ocorreu para, em tão curto período, tanto ter crescido a “onda Dilma”? – onda que, para a articulista Eliane Cantanhede (Folha), já virou tsunami.

Claro, o milagre deu-se. Existe. E tem santo de nome conhecido: LULA.

Luiz Inácio Lula da Silva, esse, sim, como sedutor de mentes alheias, tem tudo o que falta em Dilma candidata: objetivos definidos, fraseado forte, retórica ousada e idéias claras – e pouco importam os tropeços gramaticais ou, até, a veracidade questionável de boa parte do que diz em palanques.

Sem as sedutoras razões de Lula, Dilma simplesmente não teria discurso nem votos.

Quem avança sobre Serra, portanto, não é Dilma, mas Lula. Se vitória houver, será dele, e ele sabe muito bem disso. Assim como sabe que  também será dele, não de Dilma, uma eventual derrota, se, por algum outro “milagre”, tal vier a ocorrer.

Lula é um demagogo espetacular, vitorioso, avassalador, especialmente quando assume o alto de um palanque – e neste momento uso a palavra “demagogo” no sentido que os gregos originalmente deram ao termo, o de condutor do povo. Saliente-se, entretanto, que o sucesso avassalador do demagogo se deve muito à empatia nata que ele agrega ao exercício político da demagogia. Uma empatia extraordinariamente eficaz, ainda que nem sempre sincera,.  

Mas sobre empatia e demagogia (não só de Lula) escreveremos no próximo texto.  
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13/08/2010
Publicado em: Recortes do Dia | Texto de Carlos Chaparro

Debate na Internet

O mesmo show
enganador, ainda que 
em roupagem nova

Assisti ao primeiro debate via Internet, promovido nesta quarta-feira pelo grupo Folha-Uol. Tinha a intenção de escrever e postar hoje um texto novo para comentar o evento, que foi, sem dúvida, importante e histórico. Mas, na essência, e apesar das boas novidades do formato, foi apenas mais um debate em jeito de show, recheado de simulações, truques de marketing, mentiras, fuga às perguntas mais embaraçosas (sem direito a questionamentos)  e ausência de idéias sobre o Brasil.

Como show, foi melhor, menos engessado que os da TV. Mas, na avaliação feita ao final, até os jornalistas da Folha nada salientaram de novo além da maior agressividade no embate retórico entre os candidatos. Muito pouco e muito pobre, para quem pleiteia ser Presidente da República.

Por isso, continua a valer a crítica do texto anterior, postado dia 13. E que pode ser lido abaixo.


******************

Na farsa dos debates eleitorais

Jornalismo é apenas
cenário. Para enganar.

Será que as tendências do eleitorado mudam alguma coisa com os debates na televisão, desses como os que assistimos esta semana na Rede Bandeirantes?

Estou convencido que não. E as pesquisas confirmam isso. As sondagens que medem as tendências de voto raramente detectam alterações significativas produzidas por esses debates que animam o show eleitoral. Pela simples razão de que os debates são uma farsa, e o eleitorado sabe disso.

Com raras exceções, os embates televisivos entre os principais candidatos têm como principal linha de roteiro a tática de cada um deles acusar o outro de mentir. Daí, torna-se inevitável a conclusão de que todos mentem, do começo ao fim.

Sob o comando de profissionais especialistas em simulações políticas, também chamados de marqueteiros, os candidatos representam, diante das câmeras, ser o que não são. Simulam virtudes e aptidões que compõem não a sua própria identidade, mas a identidade ficcional de líderes políticos ideais. Representam personagens criados por espertíssimos projetos de marketing. Assim, com maquiagens visuais e retóricas da caça ao voto, cada um se esforça para passar à opinião pública a imagem de políticos virtuosos. Já os adversários, só têm defeitos.
E as emissoras organizam o show, e nele investem, de olho em ganhos de audiência, receita, prestígio e poder. Pouco se importando, portanto, com os ganhos sociais, que deveriam assumir como objetivo principal.

O modelo do show resulta de acordos que servem prioritariamente aos interesses dos candidatos e das emissoras. Em prejuízo da sociedade, na medida em que o jornalismo fica sem possibilidades de realizar o seu trabalho - que seria o de, pela informação veraz e pela elucidação independente, capacitar os eleitores para a decisão de conscientemente escolher e votar.

Nesse modelo que está aí, imposto pela lei e pelos vícios da tradição política, os candidatos e os partidos usam o espaço, o tempo e a credibilidade do jornalismo para fazer algo que pode até parecer jornalismo, mas não é. Porque é marketing frequentemente desonesto, sustentado no velho e imoral axioma segundo o qual os fins justificam os meios. Daí, a hipocrisia do discurso, a simulação de intenções e a dissimulação de propósitos.

O jornalismo é apenas usado como cenário, para enganar.

Por isso, penso que o jornalismo deveria libertar-se desses debates que mais confundem do que esclarecem. E encontrar formas de desvendar e expor a verdade dos candidatos, sem a preocupação do show eleitoral.

As sabatinas, por exemplo, que alguns jornais e emissoras  (de rádio e TV) fazem com bom padrão profissional,  elucidam muito mais do que os debates. Porque são ações jornalísticas, conduzidas por jornalistas, com técnicas jornalísticas, para fins jornalísticos.

Exatamente o que falta aos debates.  

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* Sobre Jornalismo X Propaganda, leia os três recortes anteriores.
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CICV, ABRAJI e OBORÉ abrem inscrições para o novo módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre jornalismo em situações de conflitos armados

Estudantes da graduação interessados nesta área do jornalismo podem inscrever-se aqui, gratuitamente, até 20 de setembro. O Encontro de Seleção será dia 25 de setembro, sábado, das 10 às 13h, na Matilha Cultural, em São Paulo. Na ocasião, Felipe Donoso, chefe da delegação do CICV para a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, fará uma apresentação e em seguida responderá  perguntas de todos os inscritos.




"Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e de expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras."
(Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos)