16/07/2007
A Revolução das Fontes
Texto de Carlos Chaparro

Elas conquistaram o poder
de agendar e rechear a Notícia


Os jornalistas não gostam de ouvir nem de dizer que dependem das fontes. Entretanto, na dimensão do mundo real, é na fonte que o repórter colhe o relato, o testemunho, a opinião, os ais e uis com que compõe a narrativa do quotidiano, sua arte maior. No jornalismo, até ao mais brilhante contador de histórias de pouco servirá a arte de escrever se não souber onde estão as boas fontes e como lidar com elas.

Dependemos das fontes, e sempre foi assim. Sem elas não existe a informação decisiva, o detalhe poético, a versão esclarecedora, a frase polêmica, a avaliação especializada. A fonte faz acontecer, revela o segredo, detém o saber ou a emoção que queremos socializar. Ou sofre os efeitos e a eles reage.

Assim como a seiva está para a árvore, a fonte está para o repórter, o editor e o articulista da análise diária. Por isso o jornalista a cultiva e preserva, às vezes com intimidade perigosa, e com ela partilha segredos que não chegam ao leitor. 

Na hora de escrever, na rotina da produção e dos procedimentos profissionais (os conscientes e os inconscientes), a perspectiva das fontes influencia, inevitavelmente, a decisão jornalística – e quanto mais competente elas se tornam, mais capazes são de determinar enfoques, relevâncias e até títulos, na narração jornalística.


***

Já houve tempo, longo tempo, em que tanto as empresas e as organizações sociais quanto as instituições governamentais tinham, em relação à imprensa, uma atitude passiva e burocrática, quase sempre defensiva. E porque havia escassez de fatos e casos importantes intencionalmente produzidos, o inusitado, o insólito, o engraçado, e também o linearmente dramático (o atropelamento, a tragédia, o crime passional, a morte inesperada...) reinavam como atributos decisivos nos critérios de pauta e edição, também nos grandes jornais. Foram tempos em que o fait-divers ganhou honrarias e venerações de mito, na cultura jornalística. 

As coisas mudaram ao longo dos anos 70, principalmente depois deles.

Democracia, mercado e tecnologia formaram a mistura que criou a lógica da competição sustentada em informação, com mais ou menos exageros neoliberais. Institucionalizaram-se os interesses, as ações, as próprias pessoas. Globalizaram-se os processos, as emoções, principalmente os fluxos e os circuitos da informação. E a Notícia tornou-se o produto mais abundante da realidade global. 

Noticiar passou a ser a mais eficaz forma institucional de agir, discursando, e de discursar, agindo. Para o sucesso, as instituições apropriaram-se das habilidades narrativas e argumentativas do jornalismo; assimilaram as rotinas e a cultura da produção jornalística; e no planejamento e controle dos acontecimentos, a dimensão comunicativa ganhou preponderância, para a divulgação dos eventos e a difusão do discurso. 

Em crescendo que a pesquisa acadêmica especializada precisaria acompanhar melhor, aumentou, em pautas e noticiários, a participação de acontecimentos planejados, com conteúdos gerados e fornecidos pelas fontes. 


Estudo de caso:
O “fazer” e o “dizer” do MST



No Brasil dos últimos vinte anos, ninguém fez melhor isso do que o MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra. Trata-se de um case notável de utilização do jornalismo como linguagem e espaço de ação discursiva.

Ao contrário do que o próprio movimento sugere, o MST é uma organização bastante complexa. Tem áreas de decisão protegidas pelo sigilo; lideranças (várias delas com formação superior) cuja hierarquia não é perceptível; capacidade de ação e articulação que nenhuma outra organização social exibe no Brasil; e fontes de suprimento financeiro de várias origens, inclusive internacionais. 

O movimento surgiu e cresceu com o mais coerente discurso de esquerda, na história recente brasileira, com a novidade de cultivar uma síntese de marxismo e cristianismo. E com o apelo sedutor de ter a justiça social como razão de ser e agir – que lhe serviu muito, e bem, pelo menos enquanto não assumiu publicamente o objetivo principal de lutar por um modelo socialista de regime e de reforma agrária.  

O inquestionável sucesso político do MST deve-se à conjugação inteligente de todos esses fatores. Mas resulta, principalmente, da perfeita sintonia entre o fazer e o dizer, entre a ação e a divulgação. As ações do MST têm, quase sempre, alta dosagem de interesse jornalístico. E por causa da alta dosagem de interesse jornalístico, a conquista de espaço na mídia é decorrência natural.

A competência do movimento para lidar com a informação amplia a rentabilidade jornalística dos acontecimentos. E a eficácia da divulgação agrega, às ações, dosagens significativas de sucesso. Foi o que aconteceu com a marcha dos Sem Terra até Brasília – provavelmente, a mais ousada e complexa ação política na história do MST.

***

A Marcha teve início no dia 17 de Fevereiro de 1997, em tempos áureos de Fernando Henrique Cardoso. Participaram da Marcha cerca de 1.200 militantes do MST, divididos em três colunas, saindo de pontos diferentes do País, em itinerários convergentes para Capital. Os três grupos chegaram a Brasília no dia 17 de Abril, onde, aos Sem Terra, se juntaram milhares de outros trabalhadores, para manifestações conjuntas de protesto e oposição, em favor da reforma agrária. 

Com finalidades acadêmicas, coordenei, naquele mesmo ano, um estudo sobre o significado discursivo dos acontecimentos (projeto realizado com a ajuda financeira da FAPESP). Medições feitas para esse projeto revelaram que, somente em dois jornais (Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo), a Marcha dos Sem Terra a Brasília gerou, no seu percurso de dois meses, 374 peças jornalísticas, entre reportagens, editoriais, crônicas, artigos assinados, notícias e entrevistas. Essas peças (incluindo texto e fotos) ocuparam um espaço total de 120.432 cm2, o que corresponderia a 67 páginas impressas em formato standart.

***

Para poder atribuir significado a esses números, conversei longamente, em maio de 1997, com o então coordenador nacional de comunicação do MST. Neuri Rossetto. Ele era um dos vários dirigentes do movimento oriundos ou ligados á Igreja Católica. Conversou aberta e naturalmente sobre todas as questões colocadas, proporcionando à entrevista um conteúdo de alta valia para a compreensão do MST, que ele definiu assim:

- O movimento tem três objetivos. O primeiro é promover a luta pela terra, ou seja, a luta corporativa do camponês que não tem terra e necessita dela para sobreviver. Foi o primeiro estágio da nossa luta. O segundo objetivo é a reforma agrária, e essa é uma luta mais ampla do que a luta pela terra. Porque implica, em nossa opinião, a modificação da estrutura fundiária brasileira, e modificando essa estrutura fundiária, modifica-se a política agrícola do governo.Ou seja: não basta dar um pedaço de terra a quem não a tem; é preciso mudar a agricultura do país. No terceiro objetivo, nós colocamos a necessidade de fazer mudanças políticas amplas na sociedade brasileira, porque sem isso a reforma agrária não terá sucesso.

A partir dos objetivos, Neuri Rossetto traçou a identidade político-social do MST:

- Somos, simultaneamente, um movimento com uma vertente sindical, quando fazemos a luta corporativa; somos também um movimento popular, porque, para nós, a reforma agrária tem um significado que vai muito além da luta econômica dos camponeses por um pedaço de terra; e somos um movimento político, porque temos consciência de que precisamos mudas a sociedade para fazer a reforma agrária.

Nos cuidados para definir e organizar o MST, seus criadores estudaram as vitórias da ditadura militar (1964/ 1984) sobre os movimentos populares. A partir desses estudos, foram criadas estratégias e táticas que apanharam de surpresa os governos, os senhores da terra e até os partidos políticos e as organizações sindicais da chamada esquerda.

Neuri Rossetto revelou:

- Não quisemos ser sindicato, porque os sindicatos são alvos fáceis da repressão, de um lado porque a lei os amarra ao Estado, de outro porque, também por imposição legal, estão fragmentados em categorias e áreas geográficas específicas, fora das quais não podem atuar. A luta pela terra ligada aos sindicatos rurais sempre existiu, mesmo nos tempos da ditadura, mas era uma luta de batalhas isoladas, distantes entre si, o que tornava fácil a repressão. Por isso, decidimos criar uma organização de âmbito nacional, capaz de atuar agilmente em varias regiões, com grande capacidade de mobilização e de produzir pressão social.

Deu certo, inclusive porque - como Neuri Rossetto reconheceu - o MST teve a sorte de receber apoios fortes. 

- Valeu-nos, logo no início, o apoio da Igreja, que tinha muita força no meio rural, onde já desenvolvia um trabalho de conscientização política no tempo do regime militar. Depois, os apoios dos sindicatos urbanos, em lutas mais específicas.

Com o tempo, o leque de apoio alargou-se, e Neuri explicou por quê: 

- Tomamos a decisão de não restringir a luta ao meio rural. Se ficássemos limitados ao campo, a luta poderia ficar isolada. Resolvemos trazer a luta também para a cidade. Achamos necessário que o meio urbano, onde está a maioria da população, tivesse contato com o que acontece no campo, até porque depende dele.

Para o Movimento dos Sem Terra (MST), o isolamento em relação á sociedade era considerado um perigo mortal. Isso ficou claro na entrevista com Neuri Rossetto. Quando lhe perguntei se estaria correto o entendimento de que o MST, ao agir no campo, discursa para a cidade, ele confirmou:

- De certa forma, sim. Como já lhe disse, não acreditamos que, sozinhos, possamos vencer a luta pela reforma agrária. Ou a gente consegue envolver a sociedade nessa luta, ou não teremos êxito. Por um longo tempo, das nossas ações concretas no campo não chegava notícia à cidade. Jornalistas amigos nos diziam: "A gente tem orientação para não divulgar o que vocês fazem e dizem". Quando a imprensa silencia, ela nos isola. Mas a gente aprendeu a lidar com a lógica do jornalismo...

Quis então saber de Neuri Rossetto qual o papel que a comunicação teve no sucesso político do MST. E ele respondeu:

- Um papel muito importante, e de mão dupla. Tão perigoso quanto o silêncio da imprensa a nosso respeito é o afastamento e a falta de interesse da nossa gente pelo que acontece nas cidades. Um conflito que não é noticiado não produz problemas para o governo, e se não produz problemas, não obtém conquistas, porque o governo só age sob pressão, e para isso precisamos do apoio da sociedade. Ora, se não conseguimos manter a sociedade informada, como poderemos esperar o seu apoio? Por outro lado, a nossa gente, no quotidiano da luta, precisa estar a par do que acontece no país, e descobrir a relação que a nossa luta tem com os problemas nacionais. Sem isso não iremos além daquela primeira fase da nossa luta, que é fase corporativa, da conquista de uma gleba de terra para quem dela precisa. Se o trabalhador rural achar que lhe basta a conquista do pedaço de terra, e que depois disso nada mais interessa, até o pedaço de terra ela acabará perdendo. Assim como precisamos que a sociedade saiba da nossa luta, a nossa luta se alimenta do conhecimento que temos sobre os problemas, as discussões e os fatos da sociedade. Por isso, a comunicação é vital para o sucesso da nossa luta.

Na explicação de Rosetto, a propaganda é indispensável, mas não tem caráter prioritário. Para o MST, a prioridade está sempre nas ações concretas, que são ações políticas. É a partir delas que o movimento organiza e projeta o seu discurso.

- O que gera notícia e debate são os fatos políticos. Nós nunca trabalhamos com a hipótese de transformar em objetivo a conquista de espaço na imprensa. Não queremos noticiário insuflado. Claro que buscamos competência para lidar com a informação. Mas consideramos que a divulgação não pode ser o objetivo. Os objetivos do MST são aqueles três de que lhe falei: conquistar terra para quem dela precisa; mudar o país com a reforma agrária; mudar a sociedade para fazer a reforma agrária. O sucesso que nos interessa não é o da divulgação, mas o sucesso das ações.

Resolvi provocar:

- Quer dizer, então, que quando vocês ocupam terras, o que pretendem é unicamente o sucesso específico da ação? Jamais cedem á tentação de fazer pirotecnias oportunistas, só para gerar noticiário? 

- É muito difícil, até porque as ações são descentralizadas. Nada é definido na cúpula, principalmente quando se trata de fazer ocupações. As famílias de cada região é que assumem a decisão e a responsabilidade de escolher as áreas a serem ocupadas. Eles conhecem o terreno, têm informações sobre as áreas ocupáveis, estão em condições de decidir, e decidem como grupos formados por gente que precisa de terra para sobreviver. Assim, não existe no MST essa coisa de fazer ocupações planejadas só para conseguir repercussões políticas mais adiante. Não instrumentalizamos pessoas.
O que Neuri Rossetto disse pode ser resumido numa frase curta: para o MST, divulgação jornalística conquista-se com o acontecimento criado, não com expedientes de propagandas. 

Tentei apanhá-lo em contradição:

- E a marcha a Brasília, dividida em três colunas, com origens geográficas diferentes, e a aliança com gentes famosa, Sebastião Salgado, Chico Buarque, José Saramago, isso não é feito de forma planejada para agregar notabilidades propagandísticas ao acontecimento?

A resposta veio firme, carregada de argumentos e informações:

- Não!A divisão da marcha em três colunas teve duas razões. Em primeiro lugar, uma razão estratégica: dividida em três colunas, percorrendo itinerários diferentes, atingiríamos um número muito maior de comunidades, e debater com as comunidades era um objetivo prioritário da Marcha. Em segundo lugar, uma razão logística; é muito mais fácil coordenar três colunas de 400 pessoas do que uma só coluna com 1200 pessoas. Os problemas de organização, de disciplina, de infra-estrutura seriam infinitamente mais complicados numa só coluna. O lançamento do livro do Sebastião Salgado não estava planejado para a época da marcha. Seria outro acontecimento. Mas houve uma coincidência, e o livro trouxe outras personalidades. Foi bom, ajudou muito, mas não fazia parte do projeto da marcha. Também na marcha, a divulgação jornalística foi conseqüência, não objetivo. Mas temos uma coisa que atrai o interesse dos jornalistas, e a marcha confirma isso: as nossas ações sempre envolvem muita gente.

***

Em resumo: dizer sem fazer é tão ineficaz quanto fazer sem dizer. E o MST sabe disso.

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