15/04/2010
Crise histórica na Igreja Católica
Texto de João José Forni *

Uma boa gestão de crise
exige transparente apuração
de todas as denúncias

Os especialistas em crises de imagem asseguram que nenhuma organização está imune à crise. A máxima serve como uma luva para uma das mais tradicionais instituições da história, a Igreja Católica. Em dois mil anos, certamente enfrentou crises graves. Papas tiveram que fugir para outros países. Seus dogmas foram questionados pela Reforma de Lutero, no século XVI. Sua trajetória registra a página negra da inquisição. Agora, a Igreja Católica se vê diante de uma avalanche de denúncias que não poupam nem a figura, vista como intocável, do Sumo Pontífice, o Papa Bento XVI. 

Notícias sobre escândalos sexuais na Igreja não são recentes. Nos Estados Unidos, desde 2002 a Igreja Católica tem feito acordos judiciais com vítimas de abusos ocorridos em educandários e igrejas do país. Nas dioceses de Los Angeles, Boston, Portland, Orange e em pequenas cidades, a Igreja foi condenada a pagar indenizações de US$ 1,2 bilhão para 2.250 vítimas. A justiça americana identificou cerca de 50 propriedades da Igreja disponíveis para venda, com vistas a cobrir as ações de indenização.

Esses casos foram tratados isoladamente e pareciam não atingir diretamente o Vaticano, por se tratar de acusações contra padres ou dioceses, em particular. Agora é diferente. Após os escândalos nos Estados Unidos e em outros países, o fato mais recente aconteceu na Irlanda. No fim do ano passado, o Ministério da Justiça da Irlanda divulgou relatório sobre abusos cometidos por padres contra crianças, entre 1975 e 2004. O relatório critica a forma como a Igreja Católica lidou com as denúncias de abusos contra 320 menores de idade.

Os abusos teriam sido cometidos por 46 padres da arquidiocese de Dublin, onde 11 deles foram condenados. O relatório critica a Igreja Católica por ter priorizado a preservação da própria imagem, a fim de evitar um escândalo, e não a proteção das vítimas e a punição dos culpados. O Papa divulgou uma carta com desculpas pelos abusos na Irlanda, o que não amenizou as críticas, principalmente na imprensa da Grã-Bretanha, bastante severa em relação ao comportamento dos líderes católicos no episódio. E em função do escândalo, o cardeal Sean Brady, de 70 anos, chefe da Igreja na Irlanda e arcebispo de Armagh, está sofrendo uma pressão para renunciar.

Em nove anos de investigação, existem evidências de que milhares de crianças e jovens sofreram abusos na Irlanda. As ações arrolam quatro bispos.  O arcebispo de Canterbury, em Londres, Rowan Williams, quebrou o protocolo e afirmou na sexta-feira santa que a Igreja Católica na Irlanda perdeu toda a credibilidade. Pelo exagero, acabou se desculpando um dia depois.

Em Milwaukee, Wisconsin (EUA), entre 1950 e 1974, 200 meninos surdos sofreram abusos do Pe. Lawrence Murphy. Na ocasião, membros da diocese denunciaram o padre à Santa Sé, em Roma. O New York Times divulgou documentos há duas semanas, mostrando como o Vaticano foi alertado e teria ignorado as denúncias. O agravante é que o cardeal responsável por essa área em 1996 se chamava Joseph Ratzinger, ou seja, o Papa Bento XVI. O padre acusado nunca foi punido pela Igreja, nem denunciado às autoridades. E morreu com 72 anos.

Estados Unidos e Irlanda, como se vê agora, eram apenas a ponta do iceberg. Denúncias de abusos sexuais contra menores também apareceram na Itália, Alemanha, Áustria, Austrália, Espanha, Suíça, Holanda e Brasil. Outro relato que também chega perto de Bento XVI, veio à tona na Alemanha. Em 1979, um padre acusado de abuso sexual contra um menor foi transferido para a arquidiocese de Munique. O arcebispo era Joseph Ratzinger (Bento XVI), que concordou com a transferência, apesar de passado do religioso. Pelo menos até 1998, o acusado voltou a cometer os mesmos crimes após transferências sucessivas de paróquias.

As denúncias de abusos vêm num crescendo desde o ano passado, quando estourou o caso da Irlanda. A maneira como a Igreja vai administrar essas acusações irá determinar como ela se sairá desta crise, uma das mais graves da instituição, nos últimos anos. A Igreja não tem tradição de trabalhar com transparência. Mas essa crise parece bater no “core business” da instituição. O jornal Corriere dellla Sera, da Itália, disse na semana passada que “a maré de denúncias nos EUA e Europa finalmente alcançaram a janela acima da Praça de S. Pedro (o Papa Bento XVI) com força destrutiva”.

As reações da Igreja, por meio do Osservatore Romano, e de porta-vozes isolados, pecam pelo conservadorismo.Os pruridos provocados pelo incômodo tema, ao ser abordado pela mídia, principalmente em países de tradição católica, como Brasil, Espanha e Itália, também não contribuem para esclarecer. As raras manifestações de autoridades eclesiásticas voltam-se mais para desqualificar críticas ao pontífice, do que para esclarecer ou lamentar as acusações. 


Como a Igreja administra a crise

Sob os princípios de gestão de crise, a Igreja trilha caminhos equivocados. O primeiro pelo fato de não ser transparente, fazendo ouvidos moucos a denúncias e evidências de crimes contra crianças. A omissão teve o propósito de abafar o escândalo e preservar um desgaste maior da imagem da Instituição. Se a Cúria Romana soube dos fatos e se omitiu, preservando os religiosos acusados, para evitar a publicidade do escândalo, errou. E induziu toda a instituição ao erro, porque, ao abafar os casos, minimizou os abusos, contribuiu com a impunidade, afrontou a honra das crianças ultrajadas e permitiu que o fato se repetisse em outros locais

Há um consenso entre teólogos, especialistas em crises de imagem e autoridades que a Igreja passou “uma sensação de traição” para as vítimas. A inação do Vaticano e, nos casos divulgados, do próprio Pontífice, quando cardeal na Alemanha e no Vaticano, teria permitido que os abusos continuassem. “A menos que o Papa possa convencer crentes e críticos de que ele está pronto para esclarecer os segredos vergonhosos, demitir todos os culpados pelos escândalos e tomar medidas efetivas para preservar futuros abusos de crianças dentro da Igreja, seu pontificado pode estar fatalmente comprometido", disse o jornal The Times, de Londres, em editorial no último dia 20 de março.

Ao denunciar os fatos, a imprensa cumpre sua parte. Ninguém está atacando a Igreja como instituição. Isso pode acontecer com qualquer tipo de organização e com qualquer comunidade religiosa. A tradição secular da Igreja Católica ou o peso da autoridade papal no mundo não dão direito a autoridades eclesiásticas de se omitirem, quando há crimes, principalmente contra crianças. Não é porque agora se desvenda a verdade - por 50 ou 60 anos mantida sob o tapete – que a Igreja se tornou menor e enfraquecida perante os crentes. É porque houve abusos, agora denunciados por ex-alunos e até por outros religiosos, que a sociedade cobra uma postura mais transparente da Igreja. O escândalo não foi inventado pela mídia, mas relatado pela mídia.

Além disso, os deslizes e crimes cometidos por religiosos, se de um lado desgastam a imagem da Igreja, de outro não desqualificam sua importância histórica, nem seu valor como instituição. Como em qualquer organização, os “pecados” de determinados membros não jogam toda a comunidade na vala comum.

Os padres pedófilos são a contrafação de personagens como Madre Tereza de Calcutá, Irmã Dulce, São João Bosco, São Vicente de Paula, Santa Terezinha, João XXIII, D. Paulo Evaristo Arns e tantos outros religiosos que escreveram belíssimas páginas na história da Igreja. Não é a doutrina nem o capital religioso que estão sendo julgados, mas atos de gestão, omissões, que degradaram vítimas inocentes. Como diz o New York Times, o escândalo está testando a confiança do povo no líder católico.

O segundo erro da Igreja foi não apresentar à sociedade e não entregar às autoridades os religiosos acusados ou suspeitos. No mínimo, deveriam ter sido afastados, o que não aconteceu nos casos dos EUA e Alemanha. Os padres continuaram a ter contatos com jovens, com a única restrição de mudar de cidade. Tapou-se o sol com peneira. E é esse corporativismo de cumplicidade que arranha a imagem da Igreja. A punição exemplar serviria como ato inibidor de outros abusos. Já a omissão permitiu a continuidade da prática, sob o manto do sigilo e da impunidade.

Abrir os arquivos dessas denúncias e trazer à luz os nomes dos acusados é uma maneira também de inibir a prática de crimes semelhantes no futuro. Manter a impunidade foi um erro no passado e continuará a sê-lo no presente, se nada for feito.

Bela retórica pode dar manchete, mas nesse caso não resolve a crise. O Vaticano não pode colocar seu poder, sua tradição ou a pseudo-intocabilidade acima do direito das vítimas e de seus familiares às devidas reparações, e nem o direito da sociedade a conhecer a verdade.

Ou seja, o que uma boa gestão de crise exige da Igreja Católica é a completa e transparente apuração de todas as denúncias, bem como, ante a revelação das verdades apuradas, o humilde reconhecimento das falhas passadas de seus líderes, incluindo as do Papa, se de fato existiram.

O que a sociedade quer, nela incluídos os leigos e religiosos católicos, é a punição dos culpados, o reconhecimento dos erros e a honesta disposição para as difíceis reparações. Indenizações financeiras não são suficientes para consertar a cicatriz na vida dos jovens que foram abusados. O dinheiro não apagará o sofrimento nem a mancha definitiva em suas vidas.

Os atos praticados por ministros da Igreja devem ser encarados como erros humanos e não confundidos com princípios doutrinários da Igreja. Os evangelhos nada têm a ver com a libido exacerbada de padres e leigos que, protegidos pela capa preta da impunidade, do silêncio cúmplice dos superiores e da rígida hierarquia eclesiástica, aproveitaram-se da ingenuidade de crianças para cometer abusos. Não há diferença essencial entre esses crimes e os perpetrados por pedófilos que se aproveitam da internet para seduzir crianças. Aqueles podem até ser mais graves, porque cometidos por agentes religiosos indicados para educar e proteger crianças, que por isso neles confiavam.

Não há por que a Igreja ter pruridos para abrir a caixa preta, contar a verdade e ir atrás de quem cometeu delitos. Em qualquer agrupamento humano – e a Igreja não está imune a isso – existem as “ovelhas negras”, para usar uma máxima do evangelho. O que as organizações não podem, e isso vale também para as igrejas, é compactuar com a impunidade quando alguém escorrega. É isso que determina se a crise está bem ou mal administrada.

O Vaticano defende-se com o argumento de que o Pontífice não tomou conhecimento dos fatos denunciados.  “Há um plano organizado, muito bem dirigido” para desgastar a Igreja, denuncia o Cardeal José Saraiva Martins, da Congregação para as Causas dos Santos. Na sexta-feira santa, o porta-voz do Vaticano comparou os ataques à Igreja e ao Papa com o antissemitismo. Teve que se retratar. Na Inglaterra, o Cardeal Keith O'Brien, o mais antigo no país, disse que "as ações dos padres pedófilos deixou os católicos sentindo-se desmoralizados e confusos e causou profunda irritação no clero inocente".

Até agora, a Igreja tergiversou. Ante a avalanche de denúncias, não soube ou não quis conduzir este assunto com a transparência, o rigor e disciplina que a situação exigia. O pacto para manter os delitos em segredo, favorecendo a impunidade, mostrou-se um erro histórico, que ainda pode ser corrigido.

E há sinais nesse sentido. Durante todos os sermões de Páscoa pelo mundo, cardeais e bispos, incluindo o Vaticano, manifestaram-se contritos sobre as denúncias de pedofilia. Mas, entre todos os pronunciamentos, a nota do episcopado da Suíça parece resumir o mea culpa entre os próprios religiosos: "Nós humildemente admitimos que subestimamos a extensão da situação. Tanto a diocese quanto as ordens religiosas cometemos erros”.
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* João José Forni é jornalista, Consultor de Comunicação e editor do siite www.comunicacaoecrise.com

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Comentários (2):
Comentário por norival gaioso
Acredito que a igreja catolica,tomar uma providencia como canal de denuncias ai sim podereia acontecer alguma melhora.
Comentário por Rosângela Maria Pessanha de Souza
Interessante, professor Chaparro, a palavra Krisis ,em grego, é juízo.
 
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