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| 20/02/2010 |
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Texto de
Carlos Chaparro
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O Último Sertanejo
Autores: Almir Ricardi
Maurício Hashizume
Renato Domith Godinho
Era dia de Reis. Não chovera, tudo perfeito para a folia. Seu Agenor “Renô” Martins tinha preparado tudo, convidado as gentes, mobilizado a vizinhança, ensaiado as pessoas no bem fazer da tradição. A juventude não sabia mais nada, os mais velhos ou foram para a cidade grande, ou morreram, ou tinham perdido o ânimo. Se não era ele, não tinha folia. E caminhava orgulhoso, à frente das bandeiras e das imagens, tocando viola e puxando o coro ancestral com os outros cantadores.
Todo ano seu Renô saía, todo ano a mesma música, que é tradição. Uma das muitas tradições dessa gente que habita o município de São Luís do Paraitinga, pequena cidade rural do Vale do Paraíba, situada a 15 km de Aparecida. São Luís é muito famosa justamente por ter pessoas como Seu Renô, que sempre mantiveram acesa a chama da tradição. Vinha muita gente de fora, até de São Paulo, só para tomar contato com essas manifestações de uma cultura autêntica. Turistas, sim, mas também pesquisadores, historiadores, antropólogos. Um deles, muito importante, um tal de Carlinhos Brandão, da Unicamp, já tinha vindo conversar com seu Renô, escreveu livros, disse que São Luís era o último reduto da cultura caipira...
Seu Renô encheu o peito, para entoar bonito com sua voz rascante. Já já, terminava a procissão. E depois, quando a noite caísse...
Quando a noite caiu, o povo dispersou. Seu Renô chamava para um folguedo, tocar viola, era dia de Reis, mas nada. A praça, aos poucos, encheu de jeans desbotados, fivelas douradas, caminhonetes reluzentes, chapéus de cowboy. Pilhas de caixas de som passaram a gritar alto as baladas de Daniel, pra meninada sapatear. E seu Renô percebeu que aquilo ali nada mais tinha a ver com ele. As coisas já não eram as mesmas, nem ali em São Luís. Baixou a cabeça grisalha e voltou para seu pequeno sítio, matutando, melancólico.
Dos oito filhos de Agenor,
nenhum quis aprender viola com ele
Meses depois, seu Renô estava vindo do roçado, era dia de finados, dia de plantar amendoim, jogar a palha na encruzilhada pra tirar as pragas da plantação, quando à sua porta esperavam dois rapazes de São Paulo. Eram jornalistas de uma revista aí, não guardou o nome, e queriam entrevistá-lo:
— Nossa matéria é sobre a cultura popular caipira, queremos saber se essa cultura está sendo trocada por essa moda “country” que quer se confundir com o sertanejo — tinha dito um deles.
É, estava. Dos oito filhos de Agenor, nenhum quis aprender viola com ele. O Edevaldo, o caçula, até começou, mas agora só quer saber de Rick&Renner, Chitãozinho, Gian e Giovanni. O Chitãozinho e Xororó até misturava um sertanejinho, mas o resto... Longe iam seus tempos de rapaz, quando na casa de seu pai reuniam-se os violeiros para varar noites no “forguedo”, cada qual tentando superar a moda do outro, improvisando, versejando.
— Cêis senta aí, fica à vontade, que eu vô tomar um banho e já vorto pra nóis conversar.
Agenor deixou-nos no sofá rasgado da saleta humilde, de paredes amareladas. Ficamos observando as fotos de família, daquelas retocadas e coloridas à mão. Imagens de santos, enfeites de contas, um chapéu de palha, Nossa Senhora Aparecida sobre o velho televisor. Tínhamos achado nosso autêntico “caipira”. Para matar o tempo de espera, recapitulávamos nossas pesquisas para esta reportagem.
“A explosão do fenômeno country
abriu espaço para que várias duplas não-caipiras
projetassem suas carreiras como sertanejos.”
Em nossa chegada ali, ocorrera um fato curioso. Na própria entrada do sítio do tal Agenor Martins, reputado guardião da cultura “de raiz”, demos de cara com uma lustrosa caminhonete S-10, cujas caixas de som tocavam o último sucesso de Leandro e Leonardo. E debruçado na porta aberta, polegar metido no cinto, um sujeito corpulento de botas altas, fivela de prata e chapéu de vaqueiro. Descobrimos que morava em Pindamonhangaba, mas passava os fins-de-semana no seu sítio em São Luís. Um típico produto da nova cultura do interior de SP, cuja rápida transformação pode ser melhor apreendida ao analisarmos um de seus produtos mais óbvios: a música. Como havia sintetizado para nós o crítico e produtor musical Zuza Homem de Mello:
— Hoje em dia, essa onda country é evidente, palpável. Tanto no interior quanto na capital, principalmente do Estado de São Paulo, rodam caminhonetes possantes, agroboys exibem botas, chapéus e camisas do mais “puro” estilo do velho oeste dos EUA. Virou moda ser country. A explosão desse fenômeno abriu espaço para que várias duplas não-caipiras abocanhassem esse mercado, projetando suas carreiras como sertanejos.
O sertanejo que hoje faz sucesso nas rádios e na TV, preparado por produtores musicais nos estúdios das grandes gravadoras, guarda muito pouco do tradicional. Este, que é expressão espontânea do povo da região, está tendendo a desaparecer engolido por essa mistura de country americano, rock, pop e balada romântica.
Zuza considera que a dupla Milionário e José Rico foi a primeira a popularizar esses novos elementos: “Os trajes norte-americanizados vestidos pela dupla, a utilização de instrumentos elétricos como as guitarras e a abordagem de temas mais urbanos nas letras caracterizaram essa mudança”, disse ele, para quem a implantação dos rodeios à moda norte-americana foi um dos principais fatores do crescimento do country, junto com o lobby do mercado fonográfico. Lobby que inclui gravadoras, TV e rádio, influenciando até mesmo as pequenas emissoras do interior.
Não se pense, porém, que o atual sertanejo “popstar” caiu de pára-quedas numa cultura imaculada, “de raiz”. Há uma lenta trajetória de influências que começou quando a música caipira folclórica começou a ser gravada no início dos anos 30 por iniciativa do pioneiro Cornélio Pires, empresário, músico e estudioso do tema. Uma vez incorporada à industria fonográfica brasileira, ela não tardou a sofrer influências, como nos esclareceu Waldenyr Caldas, professor da Escola de Comunicações e Artes da USP, com livros publicados sobre o assunto:
— A partir de 1929, quando Cornélio Pires trouxe para São Paulo a sua famosa “Turma Caipira” para gravar, começou o processo de transformação porque, embora a música caipira não fosse ainda um produto integrado à indústria cultural, já possuía um caráter mercadológico.
Gravada, a música caipira primeiro conquistou seu público familiar, o interiorano paulista, que então passou a assistirá aos shows e a comprar discos das duplas. Em seguida foi ganhando espaço na cidade, através do rádio e de apresentações ditas folclóricas em cassinos e casas de espetáculos. O processo de industrialização do país também contribuiu para engrossar o público do sertanejo na cidade. Porém, o grande marco para esta penetração da música caipira no meio urbano, como aponta Waldenyr Caldas em seu livro “O que é música Sertaneja?”, foi a grande apresentação da “Turma Cornélio Pires” no Teatro municipal de São Paulo, no ano de 1931. No dia do espetáculo, muitos caipiras de verdade, que vieram de cidades menores só para ver as duplas, tiveram de ficar do lado de fora do teatro, pois os paulistanos lotaram o municipal.
E as influências vinham de outros gêneros nacionais e principalmente de países vizinhos. A guarânia de origem paraguaia, em especial, foi tão apreciada pelas duplas e pelo público que composições de 50 e 60 ainda são cantadas com gosto pelas duplas mais consagradas de hoje…
É de 1968, por exemplo, a guarânia “Saudade de minha terra”, gravada pela dupla Belmonte e Amaraí, que sempre aparece nas antologias de música sertaneja e cujos versos perguntam: “De que me adianta viver na cidade/Se a felicidade não me acompanhar?” Mas para os parentes da dupla neo-country Zezé di Camargo e Luciano, que se mudaram quase todos para os Estados Unidos depois que houve um sequestro na família, a pergunta parece ser “De que nos adianta viver no Brasil/Se os olhos dos pobres nos acompanharem?”.
“Hoje, mesmo nas festas do Divino,
só tem apresentação de grupos de fora
cantando Chitãozinho e Xororó,
Leandro e Leonardo.”
Mas bem perto dos olhos dos pobres, filosofamos, ou pelo menos bem perto dos pobres da roça, permaneceram diversas duplas que teimaram em preservar a tradição da boa música caipira, até no estilo mais folclórico possível. Seu Jorge Charlaud, ou “Jorge do Abílio” como o chamam seus vizinhos de Catuçaba, distrito de São Luís, aprendeu a tocar viola com seu pai, Abílio, e hoje é um dos poucos jovens (34 anos) violeiros da cidade que restam para fazer companhia a Agenor Martins. Jorge tem uma dupla que ensaia canções antigas e músicas próprias. Mas mesmo ele, que também participa da Folia de Reis, fica entristecido ao comparar o valor que a música caipira tinha no passado e o que ela representa hoje:
— Antigamente, aqui no bairro de Catuçaba, era música sertaneja de segunda a segunda. O pessoal se reunia num bar ou na calçada, e mandava brasa. Era música sertaneja, desafio, forró mesmo... E nas festas do Divino e São Pedro tinha torneios em que cada dupla deveria apresentar uma música inédita. Mas hoje em dia não tem mais espaço para o sertanejo de verdade. Mesmo nas festas do Divino que ainda acontecem, só tem apresentação de conjuntos, grupos contratados de fora, cantando Chitãozinho & Xororó e Leandro e Leonardo.
Indagamos de Jorge os motivos destas mudanças:
— Acho que é devido ao rodeio, que é mais americano e influi bastante na cabeça dos jovens — responde, corroborando sem saber a tese de Zuza Homem de Mello — Essas duplas aí, que eram consideradas sertanejo, passaram a gravar country pra cantar em rodeio... o que faz sucesso no momento então o pessoal quer ouvir, quer dançar. Pra “curtir”, pra “agitar”, como diz o pessoal mais novo.
Entretanto, para Jorge, o sucesso do country não é a única causa da progressiva extinção da moda de viola tradicional, que também se perde pelo êxodo puro e simples de seus praticantes:
— Aqui mesmo em Catuçaba tinha muitas pessoas que gostavam de mexer com viola. Mas o pessoal devido a dificuldades com serviço acaba conseguindo serviço na cidade grande, em Taubaté, Ubatuba, e vai embora.
E então nós, sentados naquele puído sofá, esperando retornar de seu banho o velho violeiro Agenor, refletíamos sobre essa “extinção”. Tome-se Zuza Homem de Mello, o crítico, que, mesmo afirmando que só quem manda nas gravadoras de hoje é o dinheiro, parece ver algum horizonte para a música sertaneja. Ele afirmou, por exemplo, que o sucesso da dupla Rio Negro e Solimões é um dado positivo: “Eles estão mostrando que existe espaço para a música de raiz, contrariando a idéia de que o público mudou e gosta dessa coisa mais comercial. Não houve mudança do público coisíssima nenhuma”.
Já Waldenyr Caldas é menos entusiasmado ao falar da dupla:
- Para mim eles são uma dupla como outra qualquer... Não tem nada, mas nada a ver com sertanejo de verdade!
“Os jovens de hoje não querem mais saber
da cultura dos pais. Seus valores são outros,
criados pela televisão, pelas rádios e pelos shows.”
Pouco antes de adentrar o sítio de Agenor Martins, falamos com três mocinhas da cidade, para termos uma idéia, afinal, do “gosto do público”. Nenhuma pareceu interessar-se pelas modas de viola. O pai de Simoni Rangel, 16, toca viola, mas para ela isso é “coisa de velho”. As preferências musicais de Andréia Toledo, 19, são Leandro e Leonardo, e “axé no carnaval”. E quando perguntamos a Valéria Carine da Silva, 22, se parava para escutar quando passava junto a uma roda de violeiros, respondeu:
— A gente pára, dá risada e vai embora.
Tal sarcasmo com a tradição vindo de uma habitante do “último reduto da cultura caipira” não surpreenderia o historiador Marcelo Toledo. Também natural de São Luís, fazendo mestrado em sociologia na PUC, Toledo estuda há anos as manifestações culturais de sua cidade, e conhece bem seus habitantes. Disse-nos ele:
— Os jovens daqui hoje não querem mais saber da cultura dos pais, seus valores são outros, criados pela televisão, pelas rádios, pelos shows. É comum tratarem de forma irônica as festas religiosas, as modas de viola. Com a morte ou o êxodo dos mais antigos, a tradição se perde. Bairros de São Luís até ontem muito fortes na observação dos costumes ficaram de alguns anos para cá quase completamente descaracterizados.
Toledo acredita que a cultura sertaneja está fadada a desaparecer, a não ser na forma de grupos folclóricos institucionalizados, tradições mantidas para turistas e festivais patrocinados, coisa que já vem acontecendo. Funciona como uma espécie de museu, porém sem a primitiva autenticidade. Uma festa como a Folia de Reis, por exemplo, não seria mais motivada pela religiosidade dos participantes, seria apenas como, nas palavras de Toledo, “um desfile de escolas de samba”. E sentencia: “Mestres da tradição popular, violeiros, cantadores e declamadores, como seu Agenor Martins, não serão substituídos”.
“Naquela época nem rádio nem televisão
existia na roça. Só tinha música ao vivo mesmo,
o povo se animava pra cantar.”
O mesmo Agenor Martins que acaba voltando do banho, calças novas, camisa xadrez vermelha, o rosto amável e sorridente de caboclo. Aos 63 anos, ainda é forte, capaz de trabalhar na lavoura e de varar a noite numa Folia de Reis. Conversando, ele se empolga ao falar de seu passado, do tempo dos “forguedos” e desafios, dos festivais de música caipira que há nem tanto tempo assim reuniam dez, doze duplas de diversas cidades do interior (o próprio Agenor, em 86, foi vice-campeão num desses festivais com sua moda “Homenagem ao Vale”, cuja letra ilustra esta página). Mas desanima-se ao falar do descaso atual com a cultura que ele tanto lutou e luta para manter.
Em suas palavras simples, porém cheias de sabedoria popular, transparece uma vaga melancolia por um mundo que se arrisca a desaparecer para sempre:
— Naquela época nem rádio existia na roça. Nem rádio, nem televisão. Eu tinha doze, treze anos quando conheci rádio. Só tinha música ao vivo mesmo, o povo se animava pra cantar. Nas festa que nóis ia aqui, era só desafio, dança de baile, forró, não tinha outra música. Tudo tocado na sanfona, violão, e cantando, cantando a noite inteira. Agora com som, televisão, rádio, a mocidade só quer saber de agitar, de ouvir o sucesso da hora. É só chegar e pôr lá um som pra tocar e a mocidade tudo já segue essas música. Nas festa, a gente até tem vontade de cantar uma modinha, mas fica parado, porque tá naquele som que eles tão gostando. Se cantar uma moda eles já parece que não gostam muito, né?
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| Comentário por
william
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PARABENS PELO SITE. Na musica country VIRGINIA DE MAURO a LULLY de BETO CARRERO vem fazendo o maior sucesso com seu CD MUNDO ENCANTADO em homenagem ao Parque Temático em PENHA/SC. Asssistam no YOUTUBE sessão TRAPINHASTUBE é o sonho eterno de BETO CARRERO e a mão de DEUS.
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| Comentário por
Moacir Assunção
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| Bom o texto e a lembrança do nosso querido Pena Branca, é uma enorme pena perdê-lo. Grande abraço, professor
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| © 2007 - oxisdaquestao.com.br - O blog do Prof. Chaparro - Mídia, Jornalismo e Atualidade. |
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CICV, ABRAJI e OBORÉ abrem inscrições para o novo módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre jornalismo em situações de conflitos armados
Estudantes da graduação interessados nesta área do jornalismo podem inscrever-se aqui, gratuitamente, até 20 de setembro. O Encontro de Seleção será dia 25 de setembro, sábado, das 10 às 13h, na Matilha Cultural, em São Paulo. Na ocasião, Felipe Donoso, chefe da delegação do CICV para a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, fará uma apresentação e em seguida responderá perguntas de todos os inscritos.
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