08/10/2009
A crise do jornaismo diário impresso
Texto de Carlos Chaparro

Crise do "Pensar"

Já lá se vai algum tempo, mas a conversa poderia dar-se nos dias que correm, e pouco mudaria. Era meu interlocutor um executivo da área de marketing de uma grande empresa de comunicação, que edita um jornal importante fora do eixo Rio-São Paulo. E dele ouvi dele o relato amargurado das desilusões que diariamente sofre, quando, nas primeiras horas do dia, lhe chega às mãos o jornal onde trabalha.

"É uma tristeza", dizia-me, "não só a ausência de novidades, mas, principalmente, o esforço que esse jornalismo envelhecido faz, nos empurrando para o 'ontem' de acontecimentos importantes, já desdobrados em efeitos e em fatos novos”.

Na opinião desse executivo, como na minha, a crise mundial que há já alguns anos atinge o jornalismo diário impresso tem muito a ver com a tripla incapacidade que continua a marcar as redações dos meios impressos:

1) A incapacidade de apreender, compreender e corresponder às expectativas e demandas pré-existentes, por parte dos leitores informados de véspera pelos fluxos informativos e pela agilidade dos meios eletrônicos – expectativas e demandas por informações e explicações que tornem compreensíveis os acontecimentos complexos, conectados a causas, que se querem desvendadas, e desdobrados em efeitos que se desejam elucidados;

2) A incapacidade de, no mesmo ritmo da notícia, apreender e atribuir significações discursivas ao que é feito e dito pelos sujeitos produtores dos acontecimentos noticiáveis e noticiados. De tal incapacidade resulta a paralisia intelectual que marca esse jornalismo preguiçoso voltado para o factual da véspera.

3) A incapacidade de detectar, e agregar ao relato jornalístico, o contexto estratégico dos fatos e conteúdos produzidos pelos sujeitos institucionais que têm o poder de gerar notícias. 


Pressões complexas

As redações dos meios impressos, submetidas, de um lado, às pressões do negócio, do outro, às tensões impostas pelo ritmo da produção industrial, criaram detalhadas rotinas administrativas, para controlar e otimizar, sob o ponto de vista gerencial, a seleção e a produção do noticiário. No exercício dessa competência, boa parte do tempo é ocupada em atividades de depuração, no mar de informações que jorram das fontes cada vez mais organizadas. E não tempo, nem estrutura, nem cultura, para pensar o aprofundamento dos fatos. O que inviabiliza a possibilidade de oferecer a análise e o debate no tempo e no ritmo da notícia.

Eu e o executivo de marketing da tal empresa de comunicação chegamos à conclusão de que os jornais diários, que com rigor e criatividade desenvolveram a capacidade de fazer, precisam, urgentemente, arranjar maneiras de enxertar, nas redações, a capacidade de pensar.

Nesse rumo, começaria por propor uma idéia na qual acredito, e que há anos, em textos e palestras, repito aí, por acreditar que ela pode ajudar a  gerar novas práticas e novas atitudes, tanto no entendimento quanto no gerenciamento dos processos jornalístico. E a idéia é esta: Jornal e jornalismo são objetos diferentes. Jornal é negócio, coisa de fabricar e vender; jornalismo tem outra natureza, é objeto abstrato inserido nos processos político-sócio-culturais, como linguagem e espaço público confiáveis.

Além de diferentes, jornal e jornalismo se tornaram coisas conflitantes – o jornal, vinculado aos interesses do negócio; o jornalismo, vinculado aos interesses da sociedade, como agente mediadora dos conflitos, no espaço abstrato da difusão social.

Acontece, porém, que, embora diferentes e conflitantes, jornal e jornalismo são, inevitavelmente, entes e processos inseparáveis. Além de inseparáveis, são também reciprocamente indispensáveis. Afinal, não há jornal de sucesso sem jornalismo de qualidade, assim como não existe jornalismo influente sem meios eficazes e lucrativos de difusão.


Campos separados

Ora se, apesar de coisas diferentes, jornal e jornalismo são entes inseparáveis e indispensáveis entre si, há, portanto, que procurar acordos, para uma convivência em que ambos reciprocamente se preservem.

Para se chegar aos acordos, há que entender as diferenças. Devido aos ingredientes complicados, o assunto exigiria espaço e formato de ensaio. Dentro dos nossos limites, porém, é possível pensar as diferenças, tomando por base, até mesmo, as vivências de cada um de nós – vivências que se dão tanto no plano profissional, no qual somos submetidos às contradições do processo, no ambiente concreto da produção, quanto na experiência de cidadãos participantes das macro-interlocuções viabilizadas pelo jornalismo, no ambiente da difusão, pelos diversos meios.

Simbolicamente, na notícia está o ponto de convergência dos dois planos.

No plano concreto do negócio (produção industrial e comercialização), a notícia pode ser entendida como produto à venda, revestido de certa embalagem, o mais sedutora possível. E submetida a lógicas de custo-benefício em que todas as variáveis têm de ser rigorosamente mensuráveis (tiragem, custos, resultados etc.), sob controles ordenados pela prioridade do lucro. É o campo do negócio.

No plano abstrato da difusão jornalística, onde nada é rigorosamente mensurável, a notícia projeta no universo destinatário ações discursivas de pessoas e instituições que exercem um determinado poder e um certo querer de agir no mundo humano, para o transformar. Nesta perspectiva, a notícia nada tem de mercadoria, nem pode ser reduzida ao entendimento de espécie narrativa, porque é bem mais do que isso: é ação discursiva de sujeitos competentes - governos e oposições, por exemplo. Sujeitos que, em conexões de confronto, usam a notícia para de imediato produzir efeitos mais ou menos profundos, desorganizadores ou reorganizadores, na vida das pessoas.

Na notícia está, portanto, a alma dos conflitos que produzem a atualidade. E este é o espaço do jornalismo.


Novo leitor, em um novo mundo

O lado do negócio dispõe de cérebro poderoso. Um cérebro embutido em modelos de gerenciamento com alto poder decisório, apoiado em vasto ferramental de medições e comparações. Um cérebro capaz de definir estratégias e ações convenientes à conquista de espaços próprios, no mercado.

E o cérebro do jornalismo, onde está? Que poder tem? E como se manifesta?

As respostas às perguntas podem ser encontradas nos jornais de cada dia. Por isso, ocupei boa parte dos últimos dias lendo e comparando jornais diários, de São Paulo e do Rio de Janeiro. E reforcei a convicção pessoal de que, com todos os defeitos que nos incomodam, os grandes jornais de hoje são indiscutivelmente melhores que os de antigamente. No conteúdo e na forma. E quem duvidar, que compare. Os grandes diários de hoje têm maior clareza, tanto no texto quanto no discurso gráfico. São mais bonitos, mais precisos, mais independentes, mais críticos e mais informativos.

Têm, até, uma análise da realidade mais consistente.

Mas não é pela comparação com os de antigamente que os jornais de agora devem ser avaliados. O mundo mudou, os processos político-sócio-culturais se tornaram bem mais complexos e noticiosos. E os jornais de hoje têm de ser avaliados pela maneira como eles próprios se inserem no novo mundo e como lidam com a democracia cada vez mais aberta a ações institucionais participativas.

O mais complicado e, ao mesmo tempo, o mais valioso dos novos problemas é o cenário que as fontes organizadas impõem aos processos jornalísticos. Nelas atuam cerca de 50% dos jornalistas profissionais. Com essa competência agregada, as fontes se tornaram produtoras de conteúdos irrecusáveis, gerando notícias que aparecem em vários jornais, no mesmo dia. E as redações ainda não superaram um certo estado de perplexidade, diante dessa revolução das fontes.

Além disso, os jornais diários padecem de outra grave precariedade: de modo geral, as decisões de pauta e edição não levam em conta nem a expectativa nem a perspectiva de um novo leitor, situado em uma nova dinâmica de relações – a dinâmica da informação veloz e universal, que envolve o cidadão por todos os lados. Um leitor mais bem informado, mais instruído, mais exigente, mais ocupado e, por tudo isso, talvez mais confuso. Mas capaz de se relacionar criticamente com o seu mundo e os mundos circundantes. Um leitor que, depois da emoção da notícia recebida ontem, busca, no hoje do jornal diário, conteúdos explicativos dos fatos já noticiados e dos efeitos por eles produzidos.

E isso não lhe é dado.

Mesmo quando, internamente, em colunas e reportagens, o jornal diário possui conteúdos explicativos, de debate e análise dos assuntos do dia, raramente os anuncia na primeira página.

Ora, acontece que nas primeiras páginas está o rosto, a síntese, o tom do jornal. A primeira página é a proposta preliminar de um acordo com os leitores. E esse é o ponto crítico. A despeito da vivacidade estética das soluções gráficas, as primeiras páginas mais parecem roteiros requentados dos telejornais da véspera.

É o sinal mais evidente da falta de cérebro.


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Comentários (1):
Comentário por joao innocencio filho
"conteúdos explicativos dos fatos já noticiados e dos efeitos por eles produzidos".É como leitor concorde com suas colocações e esta frase sintetiza o que busco nas publicações que leio diariamente.Mas as coisas andam meio ruins mesmo. Um abraço
 
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