12/09/2009
Iniciação a uma teoria das Fontes
Texto de Carlos Chaparro

Parte l – O saber perguntar 
                e o poder das respostass

Ouvi certa vez, não faz muito tempo, a seguinte história:

Numa roda de amigos, todos direta ou indiretamente ligados ao Jornalismo, a conversa corria solta, sobre as virtudes e os defeitos da imprensa que temos. O pólo de referência do grupo era um veterano jornalista, dos melhores que o Brasil já produziu. Um craque nas artes da reportagem. E ótimo alimentador de conversas inteligentes. Então, alguém perguntou a esse veterano profissional como ele definiria o bom repórter.

A resposta foi dada em frase curta, precisa:

“Bom repórter é aquele que pergunta”.

Se lá estivesse, teria discordado da construção da frase. Porque bom repórter não é aquele que pergunta, mas aquele que sabe perguntar. E há uma enorme distância entre o perguntar e o saber perguntar.

Saber perguntar significa, em primeiro lugar, ter lucidez quanto ao que  não sabemos e precisamos saber. Em segundo lugar, saber quem tem ou onde está a resposta pretendida. Portanto, saber o quê e a quem perguntar. E a quem mais se pergunta, e quem mais responde, são as Fontes Organizadas

O acompanhamento regular dos principais jornais e telejornais da informação diária revela-nos a enorme preponderância que as  Fontes Organizadas têm hoje nas decisões da pauta jornalística. As pesquisas que já fiz me permitem afirmar que elas geram e controlam pelo menos 90% das informações processadas e socializadas pelos meios jornalísticos.  

São partícipes poderosos do jornalismo. E o poder que detêm deriva do fato de serem sujeitos  sociais produtores competentes de conteúdos jornalísticos, em forma de acontecimentos, documentos, pautas e falas relevantes. Investiram em departamentos ou assessorias de comunicação altamente profissionalizadas, dando à notícia, na sua origem, recheios e revestimentos jornalísticos. E porque geram conteúdos e sabem como  e quando divulgá-los, agendam a cobertura jornalística.

Quem são as fontes organizadas?

São as interfaces jornalísticas de empresas, organizações e/ou instituições produtoras de fatos e falas noticiáveis. Capazes, portanto, de utilizar a linguagem jornalística e o espaço público em que o jornalismo se transformou, para realizar intervenções discursivas na sociedade, pela via jornalística. 

É impossível, hoje, fazer jornalismo sem a participação das fontes organizadas, porque é delas a capacidade e a vocação de serem produtoras dos acontecimentos e das falas relevantes que nutrem o noticiário jornalístico. Sem elas, não há notícia nem noticiário. E não devem nem podem ser rejeitadas, porque, ao noticiarem, exercem o direito democrático de dizer.

Mas o relato jornalístico não pode ficar reduzido à simples reprodução dos discursos particulares das fontes organizadas. Cabe à ação jornalística contextualizar os fatos, fomentar a divergência, fazer aflorar o conflito e elucidar a opinião pública.
Por isso, a mediação jornalística precisa cultivar e usar outros tipos de fonte.

Parte 2 – Jornalismo, Fontes e Conhecimento

O jornalismo só é jornalismo quando se atém à verdade dos fatos.

Eis aí o pressuposto que dá consistência às relações entre o jornal e os seus leitores. E isso nada tem a ver com ética ou moral; trata-se de uma característica da linguagem, que só com a veracidade corresponderá às  expectativas sociais em função das quais existe.

Em sua natureza, o jornalismo é uma linguagem veraz. Fora disso, não há jornalismo. Se a informação não é verdadeira, simplesmente não há notícia.

Por outro lado, é o compromisso com a verdade dos fatos que qualifica o jornalismo como atividade de busca e socialização do conhecimento. 

Vamos explicar isso melhor. Ou pelo menos tentar. 

Imaginemos os fatos como se fossem objetos. E o são, na sua manifestação real. Para ser verdadeiro, o fato tem de ser necessariamente real. E sendo real, é inquestionavelmente verdadeiro.

Real e verdadeiro, o fato, objeto jornalístico, torna-se perceptível e apreensível pela sua simples ocorrência ou pela descrição jornalística que dele é feita. Mas a simples percepção do objeto não gera nem socializa conhecimento. O conhecimento só se alcança quando, ao conhecer da observação se agrega o compreender da explicação.
Para que haja conhecimento, não basta perceber o objeto; é preciso compreendê-lo.
Assim, a relação do jornalismo com a construção do conhecimento se dá pela sua capacidade de tornar socialmente compreensíveis os fatos, na complexidade da sua ocorrência e das suas significações.

Daí, a importância do bom uso das fontes.

Jornalismo empenhado em tornar compreensíveis os fatos não pode ficar atrelado apenas ao que dizem e fazem as fontes organizadas. Tem de buscar e saber usar a variedade de fontes que a própria história da cultura jornalística permite classificar em sete tipos:

1) Fontes Organizadas
2) Fontes Informais
3) Fontes aliadas
4) Fontes de Referência
5) Fontes de Aferição
6) Fontes Documentais
7) Fontes Bibliográfica

Detalharemos a seguir, em suas características, cada um dos tipos dessa classificação de fontes. Mas afirmando, desde já, que o jornalismo só se aproximará dos conceitos e dos processos do conhecimento se, com rigor, método e criatividade, se souber usar os diversos tipos de fonte em combinações inteligentes.

Parte 3 – Tipificação das Fontes

Em sua arrogância, a cultura jornalística trata as fontes como interfaces suspeitas.
Faz isso há séculos. E continua a fazê-lo, em suas manifestações formais, como, por exemplo, nos manuais de redação, que orientam os jornalistas a olhar as fontes com desconfiança.

Apesar disso, no plano das práticas e das rotinas de trabalho, o relacionamento entre redações e fontes é cada vez mais intenso e mais profissionalizado, em benefício das duas partes.

Nem poderia ser de outra maneira, pois, como já disse aqui, em aulas anteriores, sem boas fontes não haverá bom jornalismo nem bons jornalistas. E vice-versa.

Mas vamos ao que estava prometido, para esta décima quinta aula do nosso curso:  o detalhamento explicativo dos sete tipos de fonte que compõem a classificação proposta neste trabalho.

* Em primeiro lugar, as FONTES ORGANIZADAS, que se caracterizam pelo alto nível de profissionalização, tanto no que se refere à produção conteúdos noticiáveis quanto no que toca à sua divulgação.

Fontes Organizadas são empresas e instituições dos mais diversos tipos e atividades, que atuam no Jornalismo na condição de sujeitos sociais de grande competência discursiva e que se utilizam da linguagem e das via jornalísticas para afirmar ou defender os seus próprios interesses nos conflitos da atualidade. Usam a notícia como forma de ação.

* Às Fontes Organizadas se contrapõem as FONTES INFORMAIS, que não têm identidade nem atuação institucional. São, portanto, protagonistas que falam apenas por si, como pessoas. Em boa parte das situações, elas aparecem nos conflitos da narração jornalística como vítimas ou testemunhas dos fatos da atualidade, em especial aqueles que mais fortemente geram efeitos sobre a vida das pessoas.
Sem fontes informais não há como humanizar a narração jornalística.

* Igualmente marcadas pela informalidade, existem, também, as FONTES ALIADAS, assim chamadas em nossa classificação por se tratar de informantes com os quais os jornalistas estabelecem relações de confiança recíproca. Bons repórteres e bons pauteiros, em especial, se diferenciam pela qualidade e pela confiabilidade da sua lista de fontes aliadas, origem de indícios, revelações e provas para boas peças jornalísticas.

* Para as tarefas da explicação, o jornalismo precisa de bons acervos de FONTES DE REFERÊNCIA, entendidas como pessoas sábias e/ou instituições detentoras de conhecimento reconhecido e socializável, graças ao qual o jornalismo pode cumprir a importante tarefa de tornar compreensíveis, em sua complexidade, os acontecimentos da atualidade.

* Mas o dever maior é o da veracidade. E para bem servir a esse dever, o jornalismo precisa de FONTES DE AFERIÇÃO, ou seja, fontes que, por sua independência e honestidade, e pelo alto grau de especialização em determinados temas e cenários, podem cumprir o papel de avalistas das revelações jornalísticas.

* Da tipologia das Fontes fazem parte, ainda, as FONTES DOCUMENTAIS. Jornalistas empenhados na elucidação dos fatos, problemas e conflitos da atualidade jamais dispensam as revelações de documentos de origem confiável e claramente identificada, quer se trate de instituições ou de pessoa.

Os melhores estudos e diagnósticos, as melhores análises e avaliações, os dados mais confiáveis e as denúncias mais consistentes estão normalmente em documentos de boa procedência, sigilosos ou não. 

* E a tipologia das fontes jornalísticas completa-se com as FONTES BLIOGRÁFICAS, denominação que abrange livros, teses,  papers e outras formas de produção e revelação de saberes científicos, tecnológicos e culturais – e nisso se incluem os saberes populares. Trata-se de um referencial que dá fundamento às ações jornalísticas de narrar e argumentar, agregando-lhes a consistência de razões e idéias.

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Comentários (2):
Comentário por Débora
Estou gostando muito das mini-aulas, o que me frusta é que o conteúdo apreendido aqui não pode ser abertamente usado em minha monografia. Preciso de um dado especificamente bibliográfico para isso.
Enfim.... uma pena essas regras ABNT.
Comentário por Manuel Dutra
Caro Professor Chaparro,
Suas mini-aulas neste ambiente de rapidez digital nada têm de mini, mas são um manancial macro do saber fruto da acumulação da vivência, do estudo e da pesquisa. Muito obrigado de alguém que gostaria de ter sido seu aluno ou atuado numa Redação compartilhando o seu saber. Seus livros e agora a sua presença virtual, de certo, atenuam a impossibilidade de ter experimentado de sua presencial competência.
Sou jornalista e professor no curso da Facom/UFPA, em Belém.
Um grande abraço,
Manuel Dutra
 
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CICV, ABRAJI e OBORÉ abrem inscrições para o novo módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre jornalismo em situações de conflitos armados

Estudantes da graduação interessados nesta área do jornalismo podem inscrever-se aqui, gratuitamente, até 20 de setembro. O Encontro de Seleção será dia 25 de setembro, sábado, das 10 às 13h, na Matilha Cultural, em São Paulo. Na ocasião, Felipe Donoso, chefe da delegação do CICV para a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, fará uma apresentação e em seguida responderá  perguntas de todos os inscritos.




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