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| 06/07/2009 |
| Sedução das formas X Arte de escrever |
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Texto de
Carlos Chaparro
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Argumentos da saudade
Uma das seduções da linguagem jornalística é a da eficácia pedagógica e didática das formas. E a preponderância das formas marca o atual jornalismo impresso (e não só) brasileiro. Trata-se de um tema e de um cenário que angustiam pessoas que lembram com saudade a gloriosa reportagem literária, na qual brilhavam os jornalistas escritores.
Eu mesmo já me insurgi, em vários textos, contra a adesão preguiçosa ao texto meramente técnico, que contamina redações da informação diária. Lembro que, tempos atrás, ao comentar o livro Por um Fio, do dr. Drauzio Varela, escrevi o seguinte:
“(...) Falta ao jornalismo de hoje algo que dá tom e conteúdo ao livro de Drauzio Varella: a narrativa humanizada. O livro está recheado de protagonistas valorizados pelos discursos direto e indireto, habilmente dosados. São páginas repletas de gente que tem nome e história, que pensa, fala, se emociona. Mas protagonistas, falas e emoções que a ação narrativa submete a pontos de vista do autor, no desvendamento do que existe antes e para além dos fatos. Com um detalhe, fundamental: em todos os momentos do livro, o escritor interage apenas com um interlocutor – o leitor para quem escreve. E o transporta para as interações da interpretação, no amplo espaço das entrelinhas.”
Faço a transcrição por acreditar que nela está contida uma síntese das amarguras de todos nós, que tanto gostávamos e gostamos do sabor literário do jornalismo de antigamente.
Apesar disso, repito mais uma vez que considero o jornalismo de hoje melhor que o de épocas anteriores. Os vários estudos comparativos que já fiz me mostram que o jornalismo aperfeiçoou a sua capacidade de informar e analisar – em boa parte, porque melhoraram os níveis de independência em relação ao poder político. E porque se tornou mais rigorosa a vigilância ética sobre a atividade jornalística, por parte da sociedade.
Na época em que havia espaço e circunstâncias para o brilho das reportagens literárias, e sem que isso fosse considerado escandaloso, era comum o disfarce jornalístico em matérias pagas, sem qualquer indicação de que se tratava de publicidade. As empresas mamavam nas tetas e nos cofres dos governos, por meio de incentivos e de várias outras formas de acesso fácil ao dinheiro público. Os jornalistas, inclusive os de talento literário, não pagavam imposto de renda, e achava isso bom. E não eram poucos os que colecionavam empregos públicos e outras benesses, como a de viajar de graça.
Ainda assim, é lamentável que a narração jornalística se tenha submetido, sem inquietações, à força discursiva dos sujeitos institucionais. E que por isso o texto jornalístico se tenha desumanizado a ponto de nele se valorizarem coisas como índices e percentagens, mais do que falas, emoções e identidades humanas.
Texto e Arte
Entretanto, como também já escrevi em outras ocasiões, acredito que continua a haver espaço para rebeldias criativas nas redações. Qualquer que seja a empresa, o patrão ou o diretor de redação, e qualquer que seja o tamanho da reportagem, é possível dar trato de arte ao texto jornalístico e enxertar nele narrativas humanizadas e intervenções de autor – contra os excessos normativos dos manuais!
Quanto à preponderância das formas, diria que essa é uma das grandes seduções do jornalismo. Mas não vislumbro, na força das formas, qualquer razão de antagonismo com a qualidade literária dos conteúdos.
As formas são recursos de linguagem que ajudam à eficácia do jornalismo, em sua natureza de discurso de relato e comentário dos fatos da atualidade e das ações e falas humanas que interferem ou podem interferir na vida das pessoas. Além do mais, ao longo do tempo, em especial nos últimos 100 anos, as formas do discurso jornalístico incorporaram e aperfeiçoaram aptidões particulares para alcançar o sucesso imediato.
Tentarei sintetizar em três itens, complementares e interativos, o muito que poderia ser escrito sobre o assunto:
1) O jornalismo é uma linguagem de resumos, ou seja, uma linguagem que permanentemente aceita o desafio de capacitar o leitor para a decisão imediata de ler ou não ler, de assistir ou não assistir. Servem a essa interação coisas como o título, as várias espécies de subtítulos e “olhos”, os intertítulos, os resumos infográficos, as aberturas de matéria, as sínteses fotográficas e as soluções piramidais. Como linguagem de resumos, o jornalismo, mais do que qualquer outra forma de expressão não especializada, desenvolveu a aptidão de alcançar e revelar o âmago das coisas.
2) O jornalismo é uma linguagem preponderantemente influenciada pela necessidade de atender, de imediato, às expectativas do destinatário. Ao contrário da literatura, em cujas razões estilísticas prepondera a personalidade do autor, o jornalismo tem nas expectativas do destinatário o fator determinante das escolhas estilísticas. E isso tem a ver com aquilo a que chamamos de gêneros jornalísticos, impostos pela tradição.
Gêneros vêm a ser as formas de texto que dão eficácia às ações jornalísticos, cujo sucesso deve ser imediato. Não são apenas formas de escritura, mas, também, códigos que organizam as expectativas do leitor, para as interações com o texto. Por isso, a “forma” Entrevista é eficaz para relatar diálogos; a “forma” Reportagem é eficaz para relatar, valorar, contextualizar e tornar compreensíveis acontecimentos de certa complexidade; a “forma” Notícia é eficaz para relatar fatos para cuja compreensão bastam os saberes contidos no próprio fato; a “forma” Artigo” é eficaz para comentar, analisar e propor ajuizamentos sobre fatos e temas relevantes da atualidade.
3) O jornalismo é uma linguagem essencialmente performativa, ou seja, é uma linguagem que, ao ser usada, e por ser usada, projeta ou realiza ações que interferem na realidade das pessoas e nos movimentos da sociedade. Dessa natureza de linguagem performativa resulta o desenvolvimento de um estilo em que prepondera a precisão, a concisão, a clareza e o vigor acional das orações, exuberante nos títulos. Nessa perspectiva, noticiar é sempre uma forma de agir, em que os fatos valem pelos efeitos imediatos ou potenciais que produzem.
As formas servem, portanto, à lógica de eficácia que marca o estilo do jornalismo.
Trata-se de uma limitação? Sem dúvida. Mas nessa limitação está, ou pode estar, o grande estímulo à criatividade, na escrita jornalística. Até porque forma e conteúdo jamais foram inimigos ou coisas excludentes.
Para concluir, permitam-me repetir que é sempre possível dar trato de arte ao texto jornalístico.
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Carlos Navarro
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| Conheci hoje o seu blog e achei este post simplesmente genial. Obrigado e Parabéns !
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| Comentário por
Mara Narciso
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| Estou em Montes Claros, norte de Minas e faço o sétimo período de Jornalismo. Tenho colegas em atividade há mais de 20 anos, inclusive gente com Prêmio Esso em cinco ocasiões. Meus dois colegas do impresso escrevem com correção, e fazem queda de braço com quem quer sair do tecnicismo e escrever de forma poética. Um deles, Girleno Alencar, que escreve no Jornal Hoje em Dia de Belo Horizonte, diz desdenhosamente que poesia não dá dinheiro e nem emprego a ninguém. Acho possível unir técnica e literalidade. Uma coisa não exclui a outra. Sou médica há 30 anos, mas se tiver oportunidade quero mesmo é trabalhar com letras.
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Betania Libanio Dantas de Araujo
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Prof. Chaparro, parabéns por seu blog e a crítica à desumanização da escrita jornalística, é tão absurdo quanto um economista pensar alienamente em números abstraindo as suas consequências sociais... Tenho acompanhado o blog desde quando tive a honra de participar da mesma banca de Arbach na ECA, data que provavelmente criou o blog. Recebo sempre os avisos de novas notícias.
Abs
Betania Libanio
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Arnaldo Martins (Continuação)
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| Ah, e por falar em diário, tenho um desses eletrônicos que pode ser acessado no seguinte endereço: diariododado.blogspot.com. Como profissional que tudo aprendeu fora das academias, com certeza os textos aí postados não terão todos os encantos literários e técnicas dos textos do professor Chaparro, mas não deixa de ser um trabalho feito por um apaixonado que, até agora não pôde estudar para entender de técnicas, pois tudo o que aprendeu até agora está diretamente ligado à sobrevivência, e que com certeza vai virar este blog de cabeça pra baixo na leitura de tão valioso material didático...
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| Comentário por
Arnaldo Martins
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| Já que me foi permitido comentar, apesar da minha pouca idade, 36, gosto dos textos mais antigos que compunham as páginas dos jornais em extensas matérias. Era como se o leitor pudesse ler o diário de um autor literário falando sobre os fatos e acontecimentos do seu dia a dia em uma época que, apesar das imensas dificuldades nas gráficas jornalísticas que tinham que montar verdadeiros quebra-cabeças nas velhas linotipos, o prazer de ler estava acima dos modernismos da atualidade, inteiramente ligados na tomada, palavreando, aparecendo e se movendo totalmente feitos de energia elétrica e chips. Curioso é que nunca tive a oportunidade de pegar com minhas mãos uma página sequer de um desses jornais...
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CICV, ABRAJI e OBORÉ abrem inscrições para o novo módulo do Projeto Repórter do Futuro sobre jornalismo em situações de conflitos armados
Estudantes da graduação interessados nesta área do jornalismo podem inscrever-se aqui, gratuitamente, até 20 de setembro. O Encontro de Seleção será dia 25 de setembro, sábado, das 10 às 13h, na Matilha Cultural, em São Paulo. Na ocasião, Felipe Donoso, chefe da delegação do CICV para a Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai, fará uma apresentação e em seguida responderá perguntas de todos os inscritos.
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