11/06/2009
A Petrobrás deu um tiro no pé
Texto de Carlos Chaparro

O blog bem usado ajudará a Petrobrás
na performance de fonte, no Jornalismo

Em tempos daquilo a que chamo de Revolução das Fontes, a Petrobrás ousou e inovou: implantou o blog Fatos e Dados, para um deliberado confronto com a imprensa. 

Na justificativa oficial, diz a Petrobrás que o blog foi criado para garantir à empresa uma ferramenta própria de comunicação, nas rusgas que terá de enfrentar com a CPI que a investigará no Senado. A verdade, porém, é que Petrobrás usou o blog para impor regras novas ao relacionamento com a Imprensa, num exercício enviesado de autoritarismo lesivo aos mecanismos democráticos do direito à informação, que têm nos meios da comunicação jornalística um pilar essencial.

O equívoco, claro, não está na criação do blog. A Petrobrás é um dos nossos mais importantes pólos geradores de conteúdos relevantes, conteúdos que ela própria tem o dever de disponibilizar, com as modernas ferramentas que a tecnologia coloca à sua disposição. Para isso, pelo que se diz, dispõe de um contingente de 1.150 profissionais de comunicação, boa parte deles jornalistas, que, diga-se de passagem, mantêm na Petrobrás um dos melhores modelos brasileiros de comunicação empresarial. 

O blog é, portanto, muito bem vindo.

Mas o uso que lhe foi dado, logo em seus primeiros passos, nada teve a ver com a nobre idéia de socializar conteúdos que interessam à sociedade. Em vez de colocar o blog a serviço das demandas sociais de informação, alguém na Petrobrás decidiu que o blog deveria servir para divulgar, antes a imprensa pudesse fazê-lo, as respostas às perguntas recebidas das redações. Com o detalhe nada inteligente, nem prudente, de tornar públicas, também, as perguntas encaminhadas pelos jornalistas.

Ou seja: sem qualquer acordo prévio, portanto, de forma autoritária e desrespeitosa, a Petrobrás passou a expor, publicamente, os planos de pauta das redações, que as perguntas revelavam. E essa, foi uma idéia de jerico.

Face às reações, a empresa fez um rapido mas moderado recuo tático, e outros recuos ainda fará, porque as áreas inteligentes do cérebro empresarial logo perceberam que o uso belicoso do blog contra a imprensa em nada ajudaria à defesa das razões da Petrobrás, quando a CPI começar a fazer desvendamentos. Devem ter percebido, até, que o uso dado ao blog produzia danos sociais importantes, na medida em que atingia a confiabilidade da linguagem jornalismo, um bem público que à própria Petrobrás interessa preservar.

O uso dado ao blog quebrava, assim, normas tradicionais de respeito à autonomia jornalística das redações, indispensável ao sucesso dos processos sociais. E a reação foi tal que a empresa teve de voltar atrás – e não custa acreditar que a lucidez e a experiência profissional do jornalista ministro Franklin Martins tenham influenciado na decisão.

Mas a reação da imprensa também teve exageros emocionais, roçando a imbecilidade. Os jornais reagiram como se tivessem sido atingidos no seu suposto poder de donos da notícia. O Estadão, por exemplo, no editorial em que, dia 10 de junho, desancava a Petrobrás, chegou ao exagero de escrever que “a direção da estatal encontrou um meio de tolher no nascedouro (...) o bom jornalismo investigativo”.

Ora, senhor editorialista, “o bom jornalismo investigativo” não se faz com questionários formais apresentados formalmente a fontes organizadas, e o próprio Estadão dá boas provas disso nas páginas da informação política, com as reportagens em que escancara podridões do Senado da República.

Para o mundo de hoje, e para a própria imprensa, é bom que a Petrobrás tenha um blog ágil e confiável, onde disponibilize seus conteúdos mais relevantes. Mas a própria Petrobrás deve saber – e se não sabia, aprendeu-o agora – que em empresas do seu porte e da sua responsabilidade não se coloca no ar nem se alimenta um blog para brincadeirinhas de tiro ao alvo em jogos de poder, para brigas menores. Os tiros podem atingir os próprios pés - e assim acon
teceu.

No blog, a empresa se expõe, inclusive em suas fragilidades. Uma delas, a de só dizer o que lhe convém, fazendo propaganda e não jornalismo. Correndo , portanto, o risco de ser obrigada a fugir da verdade dos fatos. Ou a fugir dos fatos. E isso será facilmente flagrado e difundido. No caso da Petrobrás, e do seu famigerado blog, é o que acontecerá de agora em diante, já que todas as lupas da imprensa agredida estarão voltadas para o que será dito e feito nesse espaço de exposição em tempo real.

Sob o ponto de vista das estratégias de comunicação, o que a Petrobrás tem a fazer, inclusive usando criativamente o seu blog, é ocupar de forma competente, e com honestidade, o seu espaço de fonte importante, diria até fonte indispensável, nos processos da mediação jornalística. E ocupar esse espaço valorizando o poder efetivo que tem, de instituição geradora de conteúdos que interessam à sociedade e ao bom jornalismo.

Nesse papel, um bom blog só trará benefícios. Ao jornalismo e à Petrobrás.

______________________


* Sobre o mesmo assunto, leia também, a análise feita pelo jornalista e professor João José Forni, especialista em crises.

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Comentários (7):
Comentário por Roberto Fonseca Vieira
Caro Chaparro!
Lamentavelmente o uso da informação com proposito de interesses particulares não pode ser chamado de jornalismo, portanto usar a fonte para esses interesses particulares (privado) é negar a fonte, pois parece que estamos testemunhando a crise das fontes.
Parabéns por mais esse "RELATO VERAZ".
Prof. Roberto Fonseca Vieira
Comentário por Carlos Chaparro
Wilheim:
Envie um e-mail, pelo canal de contato do Blog, para acertarmos a entrevista.
Chaparro
Comentário por Wilheim Rodrigues
Olá, Professor Chaparro. Sou aluno da ECA e estou cursando o 1º semestre de jornalismo. Li seus textos sobre fontes e gostaria de entrevistá-lo para um trabalho sobre o assunto. Espero sua resposta. Desde já, obrigado.
Comentário por Wanderley Garcia
Olá, prof. Chaparro. Concordo que os mecanismos de comunicação organizacional não devem ser usados como ferramenta de disputa bélica com a mídia. Mas ao ler as primeiras notícias sobre o blog, identifiquei no primeiro momento mais um passo da "revolução das fontes". E acho que agora essa revolução pergunta a quem pertence o "furo"? Kucinski lembra bem, ao considerar que deve haver sigilo no relacionamento com as fontes, a imprensa trata a notícia como mercadoria e não como bem público.
http://proncovo.blogspot.com/
Comentário por Plínio Bortolotti
Caro professor Chaparro,

O sr. toca nos dois pontos essenciais:
1. A Petrobras tem o direito a criar o seu blog.
2. Equivoca-se ao divulgar antecipadamente resposta a jornalistas, algo que ela já anunciou que vai mudar. Fiz comentários sobre o assunto em meu blog:
http://blog.opovo.com.br/pliniobortolotti/
Comentário por Mari-Jô Zilveti
Salve professor Chaparro. Seu artigo é pertinente e, seguramente, vou divulgá-lo via Twitter, Facebook e email. Concordo em parte com sua argumentação. Às questões: desde quando a mídia age de forma não autoritária e respeitosa com suas fontes e faz acordos prévios?
Pode ser considerado recuo o fato de a Petrobrás alterar a divulgação das perguntas e respostas a partir de horários e dias pré acordados?
Não creio nisso. De qualquer forma, acho que um blog com nove dias de existência e a adesão a outras redes sociais, como o Twitter, mostram que a comunicação da Petrobrás é bastante ágil para o que você chama de Revolução das Fontes. Fui aluna sua na pós-graduação na ECA-USP e acompanho desde sempre suas publicações, teorias e conceitos.
Parabéns pelo seu artigo.
Abraços digitais,
Mari-Jô Zilveti
http://nomadismocelular.wordpress.com
Comentário por bernardo kucinski
Prezado Chaparro:
Eis mais um resultado desta profunda revolução trazida pela internet.Minha primeira sensação é de que a Petrobras inovou em escala mundial. Não conheço esse tipo de pratica de nenhum outro lugar. Dai a importância da discussão.Creio que a pratica expõe um conflito que sempre existiu entre o caráter público dop jornalismo e a apropriação privada da produção jornalistica. Ao mandar o seu questionário ( usando a internet em vez de de bater sola,como V. bem observa) e empresa considera sua ação como propriedade privada ,insumo para uma produção que renderá um lucro e por isso protegida por assim dizer por um direito de patente válido até a data da publiação. A Petrrobras, em contraste, trata todo o relacionamento como um bem púbico, aberto ao escrutinio público desde o primeiro instante - com isso igualando o facil questionario a uma pergunta feita numa coletiva. Creio que com a correção feita. vai ser uma grande contribuição ao ao bom jornalsmo.A conferir.
saudações
Bernardo Kucinski.
 
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