11/12/2007
O salto para os vôos da profissão
Texto de Carlos Chaparro

No caminhar dos sonhos


Na vida acadêmica, nada me dá maior prazer do que a participação em bancas, quaisquer que sejam, de TCCs a doutorados. Desde que, naturalmente, haja conteúdos de boa qualidade nos trabalhos apresentados e defendidos. 

E não é só prazer, não, mas também proveito. Porque boas bancas são momentos privilegiados de reflexão e aprendizado. Com o precioso detalhe de que quem mais proveito tira do processo somos nós, os membros das bancas, beneficiários que somos dos esforços de estudo e investigação desenvolvidos pelos candidatos - às vezes ao longo de anos, com surpreendente dedicação e rigor.

Na semana passada, vivi dois desses momentos, ao participar de bancas convocadas para avaliar trabalhos de conclusão de curso de duas jovens concluintes de cursos de jornalismo.  Uma delas, Nádia Maekawa Bellagama, da UNIP; a outra, Soraya Ventura, do Mackenzie. Ambas estavam bastante nervosas, não só ante as incertezas da avaliação que teriam pela frente, mas também porque viviam a intensa emoção de finalmente estarem às portas do ingresso na carreira com que tanto haviam sonhado. 

Ao final, a ansiedade explodiu em alegria. Por mérito dos trabalhos apresentados e das defesas realizadas, as duas alcançaram a nota máxima. Entraram estudantes naquelas salas solenes e de lá saíram jornalistas, aptas para a realização dos ideais que as levaram à escolha da profissão.

***

Nádia fez uma avaliação crítica do trabalho realizado pelas versões online da Folha de S. Paulo e do Estadão, na cobertura em tempo real da recente queda do Airbus da TAM, em Congonhas. Como pesquisadora, ela colocou uma lupa rigorosa em cima das precariedades de um noticiário que tem de ser feito de imediato em cima dos fatos, sem fontes organizadas, sem condições de aferição. E sob pressões terríveis não só das demandas sociais por informações imediatas e verdadeiras, mas também pressões da concorrência feroz em torno da variável do “quem informa em primeiro lugar”. 

Com seu trabalho, Nádia revelou o quanto a cobertura jornalística depende da qualidade das fontes, qualquer que seja o meio, a periodicidade e o padrão de linguagem. Em acidentes com o grau de dramaticidade e surpresa como esse da Tam, para a cobertura no auge dos fatos, as fontes simplesmente não existem, nem por perto nem ao longe. Quando alguém aceita as pressões jornalísticas e se atreve a dizer alguma coisa, corre-se um enorme risco de colher e socializar tolices.

Em acidentes desse tipo, ninguém está preparado para fazer a cobertura que o público espera. Assim, a crítica que se faz ao jornalismo do “tempo real” não pode adotar nem as ferramentas nem os critérios da crítica que habitualmente se faz ao jornalismo produzido em condições normais de controle, com pauta, informações pré-existentes, fontes conhecidas e organizadas, tempo para escrever e reescrever. 

Só que as condições desfavoráveis não podem servir de desculpa a quem faz jornalismo no espaço do online. Há que criar mecanismos ágeis e específicos de planejamento e controle de qualidade, a partir das próprias experiências vividas no dia-a-dia. 

E aí está um assunto que prometo investigar.

***

Além da monografia, Soraya Ventura produziu um ousado livro-reportagem, para o qual investigou a história e a alma de seis adolescentes recolhidos à Fundação CASA, o novo o nome e a nova proposta da antiga e amaldiçoada Febem. 

Foi um trabalho heróico, dadas as dificuldades de investigação a encarar e superar. Em dado momento, Soraya chegou a ficar sitiada pelos perigos de uma rebelião, com tropa de choque perfilada de um lado, de armas engatilhadas,e adolescentes rebelados do outro, armados de paus e pedras. 

Com seu belo trabalho, Soraya nos anuncia que, além, de jornalista do batente, será também escritora de livros. Tanto como jornalista quanto como escritora, está apenas no começo da caminhada. Tem pela frente uma desafiadora perspectiva de aperfeiçoamentos possíveis e desejáveis. E ela sabe disso. 

A edição preliminar do seu primeiro livro-reportagem (Antes das Grades, editado e custeado pela própria autora, já que teria de apresentar o trabalho pronto), constitui-se ótimo ponto de partida. É matéria-prima da melhor qualidade, já com um tratamento literário elogiável, mas que pode e deve ganhar lapidação, para garantir ao livro espaço próprio no mercado editorial. Tem potencial para isso. 

Soraya fez também uma boa monografia, para a fundamentação do seu projeto. Na minha avaliação, a melhor contribuição da monografia está em suas deficiências conceituais. Porque nessas deficiências se manifestam preconceitos – alguns quase seculares, ou já seculares, outros nem tanto - que sustentam esta nossa cultura jornalística de muitas receitas, um vasto acervo de verdades convenientes a certas correntes, e porções históricas de arrogância.  Do caldeamento desses ingredientes resultam os tais preconceitos sedimentados em redações e salas de aula, que precisam ser, se não destruídos, pelo menos discutidos. 

E aí temos um ótimo tema para um próximo texto.

____________________-

* Veja outros textos na coluna "Em Jeito de Crônica".

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Comentários (6):
Comentário por Davi Antunes dos Santos
Parabéns mulheres! Fica aqui meu abraço e felicitações. Soraya, para o alto e avante! Como diz o supermam.
Comentário por Jubel Cardoso
Parabéns meninas! Professor Chaparro, docente moderno, pedagógico, nos deu uma aula na banca da Soraya. Eu como pai da Soraya curti um belo momento da minha filha assistindo todo seu esforço e dedicação nestes anos do curso de jornalismo. Acompanhei de perto sua luta, estagiando desde o primeiro ano da Faculdade. Acreditava no seu potencial, agora acredito mais ainda. Muito obrigado
Comentário por Luisa de Souza
Parabéns Meninas!!! E a você querida amiga Nádia, um parabéns mega especial....Nossa que falta você faz aqui em Bauru, mas só de imaginar a sua luta ai e agora a realização do seu sonho, a alegria é muito maior e mais gratificante, para mim e para muitos aqui.

"O destino une e separa as pessoas, mas nenhuma força é capaz de nos fazer esquecer de alguém que nos fez feliz por um momento."

Adorei o seu blog, Chaparro!!!

Parabéns pelo sucesso, que está apenas iniciando, Jornalista Nádia Maekawa!!
Que Deus lhe abençõe hoje e sempre!!!
Luisa
Comentário por Meire Bottura
"(...) Entraram estudantes naquelas salas solenes e de lá saíram jornalistas, aptas para a realização dos ideais que as levaram à escolha da profissão."

Parabéns a ambas! E, em especial, parabéns à minha colega de classe e amiga Nádia! Consigo imaginar a sua alegria, mas, realmente, não estou surpresa. Quem assistiu a sua banca sabe que o mérito é todo seu, E O ORGULHO É NOSSO!

Lembro claramente da menina Nádia chegando em nossa sala meio acanhadinha porque era nova na turma. E, no último dia, tive o prazer de ver a mulher Nádia, e principalmente, a jornalista Nádia! Este final de ano, tenho certeza, ficará marcado na sua e nas nossas mentes!

Parabéns, jornalista Nádia Maekawa! Você vai longe!

Meire Bottura
Comentário por Nádia Maekawa
Obrigada Chaparro, pelas suas palavras e pela presença em um momento tão importante e conclusivo de minha vida. Acredito que mediante o tema que escolhi, ainda tenho muito a explorar e com certeza seus pontos de vista muito me acrecentaram e instigaram a continuar nesse caminho.

Em certos momentos na banca tive uma sensação de "como não pensei nisso antes?" e por esse e outros motivos, quanto mais aprendo, mais percebo que tenho muito a descobrir ainda. A dúvida em lhe convidar para participar desse meu momento e a ansiedade por não saber se seria muito criticada ou questionada, se transformaram em uma grande satisfação em conhecer um ser humano como você, dedicado e empenhado em participar ativamente da fomação profissional de jovens jornalistas como eu.

Um grande abraço.

Obrigada
Comentário por joao inocencio
Parabens nadia e Soraya. E fica avisado que já estou na lista dos interessados em adquirir o livro reportagem. Esta ai uma questão que me interessa. Um abraço e e uma carreira brilhante para vocês.
 
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