Hoje, ninguém precisa do jornal
para se informar. Mas precisa dele,
cada vez mais, para se esclarecer.
“Referendo aumenta poderes de Chávez”, anunciava o Estadão segunda-feira, na manchete da sua primeira página. Que imprudência, senhores editores! Um jornal que se diz sério, e zela por isso, não pode correr o risco de ser desmentido pelos fatos e pela Internet, antes mesmo de chegar às ruas. Pois aconteceu exatamente isso: quando o Estadão chegou às bancas, o mundo já sabia da vitória do “Não” na Venezuela – e não serve de desculpa dizer que o subtítulo amparava a peremptória informação do título, atribuindo-a às pesquisas de boca-de-urna. Ora, sabem os editores do Estadão, e se não sabem deveriam saber, que nenhum subtítulo desfaz, ameniza ou condiciona o impacto de um título com a força assertiva dada à manchete em questão.
Em resumo: os editores da primeira página do Estadão nos disseram que o “Sim” havia vencido. E aconteceu exatamente o oposto.
No mínimo, no mínimo, eles, os editores que imprudentemente decidiram por essa manchete, deveriam ter desconfiado da confiabilidade das pesquisas de boca-de-urna, numa situação em que não era difícil prever duas possibilidades: 1) a existência do voto escondido pelo medo, que as pesquisas não captam; 2) a possibilidade dos jogos de enganação, no ambiente de guerrilha psicológica que cercava o referendo.
As duas coisas se confirmaram. E o Estadão teve de se contradizer no dia seguinte.
***
Neste caso, faltou ao pessoal do Estadão a prudência mínima que o jornalismo da Folha de S. Paulo demonstrou, ao colocar na manchete, como informação principal, e verdadeira, o que o concorrente escondeu no subtítulo: "Boca-de-urna dá vitória a Chávez em referendo”. Não precisou desdizer-se no dia seguinte. Ainda assim, arcou com o ônus de ter chegado às mãos dos seus leitores, na manhã de segunda-feira, com uma informação velha, superada pelos fatos novos que a internet e os demais meios eletrônicos já haviam divulgado há horas.
***
É surpreendente que as redações da grande mídia diária impressa ainda não tenham percebido que a possibilidade tecnológica da difusão instantânea e universal da notícia acabou com a velha periodicidade que organizava, em ciclos de 24 horas, a vida e as expectativas dos públicos leitores. Ciclos de vida e expectativas que favoreciam os jornais diários e que as próprias fontes organizadas então cultivavam, em seu favor.
Mas tudo mudou, com as modernas tecnologias de difusão. Aquele intervalo entre o fato e a notícia desapareceu. E porque se tornou possível incorporar aos acontecimentos a força devastadora da informação em tempo real, mudou também a lógica do agir estratégico e tático de quem produz e controla os fatos noticiáveis.
No mundo globalizado pela instantaneidade, mudou também a relação das pessoas com a notícia. Ninguém já não dependem do jornal para se informar. Mas precisa dele, cada vez mais, para se esclarecer. E se assim é, os jornais diários têm de aprender a olhar os fatos não em sua materialidade, mas pela significação dos efeitos, na qual está a verdadeira importância dos acontecimentos.
Não tem sentido, por exemplo, que em sua manchete de capa desta terça-feira a Folha de S. Paulo nos anuncie, como “grande novidade”, que a “Venezuela nega mais poder a Chávez”. O mundo já sabia disso desde as primeiras horas da madrugada de segunda-feira.
Ao optar pela escolha que fez, a Folha relegou à categoria de conteúdo secundário, nas hierarquias da primeira página, dois bons textos de análise do referendo, um de Clóvis Rossi, outra de Eliane Cantanhêde, publicados na página 2. Mas que poderiam muito bem ter dado tom e recheio a um criativo caldeamento de texto sobre a Venezuela capaz de responder às demandas por elucidação e debate – que para os bons jornalistas têm de ser coisas perceptíveis, não latentes.
Os “donos” da primeira página da Folha – como os da capa do Estadão - desprezaram a dimensão dos efeitos que dão importância aos fatos. Sob estranha letargia mental, parecem incapazes de perceber as mutações imediatas (inclusive nas indagações e perplexidades sociais) produzidas pela difusão instantânea de uma notícia como essa do referendo venezuelano, de enorme potencial transformador.
Em vez de olhar para o hoje das pessoas já informadas pelos meios eletrônicos, e tentar captar e entender suas expectativas, fixam os olhos nas materialidades do ontem. Gritam em manchete o lado envelhecido da atualidade. E nos servem um jornalismo requentado.
_________________________
* Leia também "Ufanismo tolo por um 70° lugar", e outros textos, na coluna "De olho na Mídia e no Mundo".
|