13/11/2007
A simulação do tempo real
Texto de Carlos Chaparro

Espertezas do mundo novo

Ao contrário do que se pensa por aí, notícia online, em tempo real, nada tem de espontânea. Com raras exceções, a notícia em tempo real tem, quase sempre, o sentido de bomba teleguiada, para efeitos imediatos. Nos meios financeiros, em especial, é noticiário tático, guiado por um saber estratégico bem disfarçado, para reações imediatas. E a velocidade da difusão torna impossível qualquer contextualização dos fatos. 

Claro que as generalizações sempre podem ser traiçoeiras. Assim, quando se afirmam coisas como essa, de que as notícias do jornalismo online têm origem e rotas estratégicas, fala-se das características preponderantes do processo. 

É preciso compreender que o termo "em tempo real" expressa a difusão da notícia, não as intencionalidades e circunstâncias que controlam a elaboração dos conteúdos. Assim, é  bom dizer que aquilo a que chamamos de imediatismo da informação refere-se à difusão, não aos antecedentes da notícia.

Sim, minha gente: uma coisa é a instantaneidade dada à divulgação dos fatos em tempo real, estrategicamente irradiados; outra, a lógica geradora da notícia, normalmente conectada a objetivos não manifestados na própria notícia. Por exemplo: no Brasil, ou em de qualquer outro país sujeito às instabilidades criadas pela chamada volatilidade de capitais oportunistas, o presidente do Banco Central escolhe cuidadosamente a hora em que produz falas ou fatos noticiáveis que interferem no mercado. E o que diz e faz é feito e dito para a difusão imediata, tendo em vista efeitos também imediatos. Mas as razões estratégicas de tais falas ou fatos são cuidadosamente planejadas e avaliadas, para que os efeitos sejam os convenientes à ação governamental. 

Onde está o imediatismo? Na difusão, apenas na difusão. Mas, como ação tático-estratégica, esse tipo de notícia é uma intervenção com antecedentes cuidadosamente pensados. 

Eis aí uma das variáveis mais interessantes e instigantes da crise que a tecnologia criou no jornalismo diário: o desaparecimento daquele histórico intervalo chamado periodicidade, que organizava a atualidade e que poderíamos explicar assim: as coisas aconteciam, eram observadas, apreendidas e compreendidas, para o relato jornalístico do dia seguinte. 

Algumas décadas atrás, assim era a vida, organizada em ciclos de 24 horas. 

Nos acontecimentos fundamentais, as coisas acontecem e são noticiadas ao vivo. Mais do que isso: em boa parte dos casos, acontecem ao serem noticiadas.  E porque são noticiadas.


***

As fontes institucionalizadas apropriaram-se da nova arma a que chamamos de divulgação em tempo real. Elas agregam, aos fatos e às falas que produzem para a difusão instantânea, atributos de contundência e interesse que tornam os conteúdos irrecusáveis como notícia imediata. E ao jornalista das coberturas em tempo real não se concede tempo para pensar. Porque, a ele próprio, o que importa é difundir. 

Para lembrar o mais dramático exemplo, assim foi e aconteceu na derrubada das torres gêmeas de Nova York - lembram-se?


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Comentários (1):
Comentário por Francisco Madureira
Muito bom o exercício de crítica, professor!
É incrível como este efeito agiganta-se nas redações online atualmente, e pouco se discute, com autoridade de argumento, as restrições que o instantaneísmo, já há tanto discutido por gente como Ignácio Ramonet, traz à notícia. O surgimento dos conflitos, a reflexão, o contexto... tudo se perde.
Muito bom o paralelo com a bomba tele-guiada. Cabe-nos manter as baterias anti-aéreas bem ligadas! =)
Abraço do ex-aluno e também blogueiro,
Francisco Madureira
http://clicologoexisto.wordpress.com/
 
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