29/10/2007
Foi-se o tempo do jornalista contador de histórias
Texto de Carlos Chaparro

Talvez Edgar Morin nos ajude
a entender o jornalismo de hoje



O que é ser jornalista? Em resposta a essa pergunta, ouço há anos, de colegas, a frase que , na opinião deles, sintetiza a visão romântica do jornalismo: “Nós contamos histórias...”

Também já fui contador de histórias. Lembro-me, por exemplo, de emocionante aventura de jornalismo policial em que me vi envolvido, em julho de 1960, quando trabalhava no Diário Ilustrado, então um importante vespertino de Lisboa. No lugarejo chamado Vale de Nogueira, nas redodezas da capital portuguesa, emergira num poço o cadáver de mulher ainda jovem, bonita. O corpo apresentava diversas perfurações e outros sinais de violência. E havia um mistério de cuja decifração dependia a solução do crime: ignorava-se a identidade da vítima. Sem se saber quem morrera, jamais se chegaria ao assassino.

Criou-se uma emoção nacional quando a RTP (Rádio e Televisão Portuguesa), em preto-e-branco, começou a divulgar o retrato da morta, pedindo à população que informasse à polícia casos de mulheres na mesma faixa etária recentemente desaparecidas. A Polícia  precisava de pistas. E a ela chegaram 14 indicações de mulheres desaparecidas, número rapidamente reduzido, porque a maioria delas logo reapareceu. 

Apoiado numa pista fornecida pelo correspondente de Aveiro, o Diário Ilustrado resolveu investir na hipótese de que a vítima era uma certa Filomena de Pinho, nascida e crescida em Ilhavo, pequena cidade do norte de Portugal. 

Na flor da idade, Filomena se aventurara à vida, mudando-se para Lisboa, e nas ruas da capital desaparecera, dizia a família. Havia um impressionante conjunto de detalhes a reforçar-nos a convicção de que era de Filomena aquele corpo perfurado à faca, aparecido nas imediações de Caneças. E o jornal atirou-se numa investigação paralela, em ostensivo confronto com a Polícia Judiciária, que seguia outra pista, a certa. 

Fiz dupla nessa aventura com um colega de nome António Feio, ótimo sujeito, infelizmente já falecido. Ele foi para Ilhavo, à cata de antecendentes e contextos emotivos; eu mergulhei nas vielas de Lisboa em busca de rastros deixados pela Filomena. A história rendeu dias de reportagem, reunindo dezenas de depoimentos que confirmavam a hipótese em que acreditávamos. Cheguei a ir duas vezes ao Instituto de Medicina Legal com amigas de Filomena, para que olhassem o cadáver, e todas garantiram tratar-se dela. Mas não era a busca da verdade que nos movia, embora até acreditássemos nisso. O que nós precisávamos era de episódios novos a cada dia, para que a história se mantivesse viva e emocionante enquanto pudesse durar. Não éramos policiais, mas garimpeiros e contadores de histórias da rua. 

Detalhe ironico: quando se soube a identidade da mulher assassinada, descobrimos que era uma quase vizinha de António Feio.

***

Para relembrar a aventura, rebusquei recortes empacotados no fundo de uma velha gaveta. São dezenas, talvez centenas de textos que guardo desses tempos de repórter em início de carreira. Espalhei-os sobre o tampo da mesa de dois metros. E quase todos são narrações de histórias de rua, a partir de fatos fortuitos, de curiosidades descobertas, de pequenos ou grandes crimes e acidentes. Ou então refletem a alma romântica do repórter em busca de personagens do mundo, se possível em ambientes e temas dramáticos. 

Reli esta semana, com enorme prazer, a reportagem que me deu um prêmio em 1963, feita em Macau, não o território asiático da saga portuguesa, mas a cidade do Nordeste brasileira onde até a água de coco é salgada.

Macau era, e ainda é, o maior centro produtor de sal do Brasil, e isso fazia da cidade um pólo de prosperidade. Nos fins de semana, o dinheiro entrava aos roldões no comércio dos prazeres, levado pelos estivadores, que ganhavam altos salários para carregar navios, ancorados ao largo devido à falta de porto. Espalhadas por bares, caberés e prostíbulos de várias categorias, mas circunscritas numa região conhecida por “zona’ (o bairro do pecado), as 1.200 prostitutas profissionais representavam dez por cento da população de Macau. A jogatina ocorria e corria às escâncaras, apesar da ilegalidade. E as noites de sexta, sábado e domingo eram de festa sem interrupções, mesmo quando faltava a energia eléctrica. Nessas emergências, os estivadores de bolso abonado alugavam jipes para que iluminassem o ambiente com os faróis, até que nas baterias se esgotasse a carga. 

Lá ouvi, contada pela própria, a história da Rosita (chamemo-la assim), a mais cara, bonita e apetecida prostituta das noites de Macau. Dava-se até ao luxo finamente debochado de tirar férias integrais no Verão: ia para Recife, hospedava-se na casa de uma irmã e namorava bem comportada, sem conceder liberdades - “no máximo, um beijinho e segurar na mão”, dizia, entre sorrisos marotos.

Esse jornalismo contador de histórias morreu por falta de espaço e função. É prazeroso relê-lo. Reativa sonhos e lembranças. Mas não tenho saudades dele, a não ser pela carga de humanização que o temperava, e que falta no jornalismo de hoje. Era um jornalismo diletante, que pouco ou nada contribuía para alterar o rumo das coisas. Tinha vínculos com a vida, os vínculos da narração, mas não produzia efeitos na atualidade. Nem de verdade a refletia. 

***

Faltam definições para o jornalismo. Julgamentos, não. Em boa parte dos casos, julgamentos pouco lisonjeiros. Até a Napoleão atribuem a avaliação histórica de que a antiga aristocracia teria sobrevivido"se tivesse aprendido a manipular a imprensa". 

Mas foi Balzac que eternizou em palavras a mais degradada imagem moral do jornalismo, que para ele corrompia as mais belas almas. Em As Ilusões Perdidas, o criador do realismo constrói uma sátira em que arrasa a imprensa e as casas editoriais francesas do seu tempo. "Um jornalista é um acrobata", dizia o redator-chefe Losteau, em suas aulas de "jornalismo" ao jovem Luciano, ensinando-o a usar a "picareta da crítica" a serviço de quem lhe pagasse bem. 

Coisas escritas no século passado, lembradas até nas atuais escolas de jornalismo, porque talvez ainda aplicáveis a certas situações particulares. Mas que não conseguiram evitar o crescimento da imprensa e a sua inserção na aventura democrática, como instrumento essencial para a realização de objetivos das sociedades modernas. 

Entretanto, persiste a questão: o que é Jornalismo? 

Repito com freqüência a pergunta, a alunos, colegas e amigos. E ouço, como respostas, frases que apenas traduzem particularidades ou curiosidades da atividade que informa e interpreta, para o mundo, o que de relevante acontece no próprio mundo - e essa é apenas uma definição criada no fluir do texto.

O mais consultado e citado dicionarista brasileiro, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, sentencia, com irritante precisão, que jornalismo é “a profissão de jornalista”. O caminho não está, portanto, nos dicionários. Talvez seja mais fácil apreender o significado do termo “jornalismo” na primeira página de qualquer jornal diário importante. 

Aí estará, em sínteses, o noticiário de um mundo complicado, movido a interesses conflitantes, que se manifesta em falas e acontecimentos, ditas e feitos para serem divulgados. Lendo os jornais, a gente descobre que o jornalismo, mais do que uma profissão que exige talento, liberdade e idealismo de quem a exerce,  transformou-se numa linguagem e num ambiente que a sociedade organizada utiliza para expressar e ajustar discursos interessados, conflitantes, para os confrontos discursivos do tempo presente. 

Os atos, as falas, até os silêncios, ao assumirem forma e força jornalística, tornam-se intervenções na atualidade, produzindo imediatos efeitos, diretos ou indiretos, na vida das pessoas. Conquistam as primeiras páginas os conteúdos mais relevantes, isto é, os que mais efeitos multiplicam, e que por isso mais interesses envolvem, incluindo os interesses dos leitores.  

Trata-se de um processo de alta complexidade, carregado de contradições e complicações, numa tal “imbricação de ações, interações, retroações, que nem o espírito humano nem um computador extremamente potente poderiam medir, ou mesmo discernir, os elementos e os processos desta teia emaranhada” – como diria Edgar Morin, mestre universal da complexidade. 

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Comentários (7):
Comentário por Paulo Zackyner
O texto do Prof. Chaparro ( ótimo, como sempre ) não toma partido. Ele é apenas uma constatação. Concordo em gênero número e grau !
Comentário por Carlos Chaparro
Recebi o seu e-mail, Andréa. O mecanismo do correio pelo blog funcion a perfeitamente. Abraços e obrigado pelas informações.
Comentário por Andréa Zulian
Professor, estou tentando enviar um e-mail pelo contato aqui do blog e eles retornam. Para qual endereço posso enviar?
Obrigada!
Comentário por marli
olha só, logo um exemplo de contador de histórias diz isso?!
Não concordo que contar histórias seja uma coisa fora de moda, até porque, em um mundo no qual as transformações ocorrem com rapidez tão grande, é difícil falar em moda.
Acho que as coisas devem conviver: as notícias e as grandes reportagens, especialmente nos jornais, que perderam um pouco o rumo depois da internet.
E contar uma história não é se render ao apelo dramático ou sensacional dos fatos, mas também saber provocar emoções e sensações nos leitores, que devem se sentir convidados a saborear um bom texto. É a história da "Metáfora das gamboas" lida no seu livro Linguagem dos conflitos e experimentada (as gamboas) em "além mar", infelizmente não ao som de um fado.
abs, marli
Comentário por Daniela Ayres
Professor Chaparro, não desista dos contadores de história! O jornalismo só existe por meio das pessoas e apenas para elas. Não pode deixar de ser humano. De fato, há cada vez menos espaço para uma prática que tanto admiro. Eu sei que sou muito jovem ainda, que ainda nem me formei- canso de ouvir que quando me formar verei que as coisas não são bem assim... Mas me lembro que desde pequena aprendi que não deveria confiar muito nos outros e, por teimosia, sempre confiei. Os enganos foram muitos, mas sem a teimosia jamais encontraria as pessoas maravilhosas que encontrei. É certo, é sempre certo, que no caminho há pedras. Gosto de dar um chute nelas de vez em quando. Não sou a favor de viagens literárias em folha de jornal, mas uma história bem dosada e contada abre margem para boas reflexões e possibilidades de mudanças sim, mesmo que pouca gente as leia.
Abraços!
Comentário por Francineide Augusta Furtado
Revisão: "Como leitora antiga e viciada"...
Comentário por Francineide Augusta Furtado
Como leitora antiga e viciado em jornais de papel, sinto falta dos contadores de histórias. E lamento.
 
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