"Pré-Pauta",
a experimentação das idéias
Para testar as idéias em torno de um modelo jornalístico de assessoria de imprensa, foi criado pelo autor um projeto para a aferição da proposta teórica, concretizado com a criação do boletim “Pré-Pauta”, em novembro de 1984. O “Pré-Pauta” fazia parte do Programa de Comunicação Social da então chamada Coordenadoria de Atividades culturais (CODAC), órgão central da Universidade de São Paulo, instituição de inquestionável interesse público.
O boletim começou a ser distribuído semanalmente a um público formado exclusivamente por jornalistas. Não houve pré-lançamento, nem qualquer apresentação ou justificativa: o “Pré-Pauta” simplesmente começou a chegar por correio aos destinatários, com informações sobre a produção científica da USP. Logo nas primeiras edições passou a ser enviado, regularmente, a cerca de 500 jornalistas, em sua maioria editores, chefes de reportagem, editorialistas, pauteiros, repórteres especiais e correspondentes.
Definimos para o “Pré-Pauta” quatro objetivos-guia:
1) Manter os profissionais de Imprensa bem informados sobre a USP.
Neste objetivo estava embutido o seguinte critério jornalístico prioritário na experiência:
* A Assessoria de imprensa deve ter como único público os jornalistas profissionalmente atuantes nos meios de comunicação, respeitando-lhes o direito de decidirem o que deve ou não ser divulgado.
2) Assegurar aos editores e pauteiros dos veículos de comunicação de massa um fluxo regular de bons assuntos jornalísticos e um referencial sempre atual de boas fontes.
Tal objetivo propunha-se a exercitar um segundo critério básico:
* A informação de interesse público deve chegar plena e oportunamente aos profissionais de imprensa que, nos meios de comunicação, têm a responsabilidade de decidir o quê, quanto e como publicar.
3) Criar uma prática de interação com as redações, facilitadora do contato direto entre os jornalistas e as fontes de seu interesse.
Com esse objetivo pretendia-se implementar a prática do seguinte critério:
* A Assessoria de imprensa deve atuar nas instituições como aliada das redações, facilitando – e jamais obstruindo – o acesso às informações de interesse público. Nos casos em que o dever do sigilo tenha prevalência enquanto fator de interesse público, os jornalistas devem ser corretamente esclarecidos.
4) Oferecer aos cientistas, pesquisadores e professores da USP um instrumento ágil, acreditado e apto para a divulgação dos conhecimentos, questionamentos e resultados obtidos na pesquisa, na experimentação, no ensino e na prestação de serviços à comunidade.
Era um objetivo acoplado a um critério voltado para a credibilidade do projeto junto às fontes, assim formalizado:
* No plano interno, o trabalho de assessoria de imprensa deve tornar-se respeitado pela sua qualidade jornalística – ética e técnica.
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Quanto aos conteúdos e à forma, o “Pré-Pauta” assumiu as seguintes características, como marcas de identidade:
1) Publicar matérias, sempre e somente, determinados pelo interesse público das informações.
2) Oferecer, com precisão, as informações de essência dos assuntos tratados, para tornar viáveis duas alternativas de uso:
a) A utilização do texto como pauta, para a posterior expansão jornalística do assunto, a critério da redação ou do jornalista usuário;
b) O aproveitamento imediato das informações oferecidas.
3) Identificar a fonte principal de cada tema, com nome, qualificação e telefone de acesso.
4) Dar aos assuntos abordagem rigorosamente jornalística, valorizando a relevância social, cultural, pedagógica, tecnológica e/ou científica das informações.
5) Adotar um estilo gráfico de fácil identificação, tendo como formato uma folha alongada, com o verso em branco, para facilitar o recorte e colagem das matérias, para manuseio ou arquivamento.
A esse conjunto de características de identidade acrescentamos três procedimentos padrão:
a) Jamais solicitar dos jornalistas usuários a divulgação ou aproveitamento de qualquer matéria proposta pelo “Pré-Pauta”.
b) Fazer a intermediação entre as redações e as fontes somente a pedido dos jornalistas, quando tal procedimento for do seu interesse.
c) Atender prontamente, e sem cobranças de aproveitamento, as solicitações da Imprensa.
Com esse proposta, o “Pré-Pauta” consolidou-se logo nas primeiras edições, tornando-se uma referência de qualidade e credibilidade nos meios jornalísticos de São Paulo.
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Como já se revelou em um dos textos anterior, o projeto “Pré-Pauta” cumpria o papel de “trabalho de campo” da proposta de mestrado do autor, que recebeu o título de “A Notícia (bem) tratada na Fonte”. Mas foi bem além disso, porque teve continuidade durante vários anos, como ferramenta de relacionamento da USP com os meios de comunicação social, para efeitos de divulgação da produção científica da instituição. Na verdade, do “Pré-Pauta” resultou, já em tempos de Internet, a criação da atual Agência USP
Avaliação
Os procedimentos metodológicos do mestrado exigiam que, no tempo adequado, fosse feita uma pesquisa de avaliação do “Pré-Pauta”. Nesse trabalho de pesquisa, optou-se por não fazer levantamentos quantitativos dos efeitos jornalísticos do “Pré- Pauta”.
O que pretendíamos era a elucidação dos seguintes pontos:
1) A qualidade do "Pré-Pauta" como elemento gerador de matérias jornalísticas.
2) Os reflexos, positivos ou negativos, no relacionamento entre cientistas e jornalistas.
3) As preferências dos veículos de comunicação social, segundo as Áreas de conhecimento.
4) A contribuição que a divulgação produzida pelo "Pré-Pauta” trazia à pesquisa científica.
Ao invés do levantamento exaustivo, sujeito a lapsos, nos meios de comunicação de massa, optamos por detalhar os efeitos do "Pré-Pauta" a partir das fontes (cientistas entrevistados), naturalmente motivados e credenciados a exercer esse controle e a formular juízos apropriados sobre o desempenho e a qualidade do projeto.
A pesquisa abrangeu todo o ano de 1985, compreendendo 44 edições do "Pré-Pauta" (do número 8 ao 51). Nesse período, 124 cientistas foram entrevistados pelo boletim. E desse total, a nossa pesquisa alcançou 33 deles, o que representava 26% do universo, considerado suficiente à inferência estatística.
A aleatoriedade da amostra foi assegurada por critério de sorteio, estabelecido pela geração de números de seqüência, correspondente a adições do último algarismo telefônico de uma página do catálogo, escolhida ao acaso.
Sem entrar na descrição exaustiva do método aplicado e dos resultados alcançados, o que seria enfadonho, vale a pena resumir os principais dados das respostas, em relação aos pontos de interesse que motivaram a avaliação. Assim:
1) O “Pré-Pauta" foi considerado INOVADOR por 24% dos cientistas entrevistados e EFICAZ por 58%.
2) O trabalho dos repórteres foi julgado ADEQUADO, CORRETO ou de BOM NÍVEL por 78 % dos cientistas ouvidos.
3) A análise estatística revelou como “não significativas” as diferenças entre os campos científicos, no que se refere ao tratamento recebido dos diversos meios de comunicação que pautaram assuntos envolvendo os entrevistados. Portanto, o bom assunto jornalístico independe de ser da área de Humanas, Exatas ou Biológicas.
4) 60 % dos cientistas detectaram resultados práticos benéficos aos seus projetos ou atividades de pesquisa em que trabalhavam, como conseqüência da divulgação.
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Sem preocupações medições quantitativas, consideramos indispensável à avaliação demonstrar, com um pequeno mas representativo elenco de exemplos, como o conceito jornalístico de assessoria de imprensa implementado por intermédio do “Pré-Pauta” se revelou adequado, técnica e eticamente, ao trabalho livre e criativo dos jornalistas das redações. Os exemplos recortados colocavam em evidência que, quando a informação é trabalhada com critérios jornalísticos na sua origem, isto é, no âmbito da fonte, os conteúdos ganham em qualidade, a possibilidade de boas pautas é ampliada e o trabalho posterior dos repórteres fica facilitado.
Depoimentos
Essa conclusão foi reforçado por um conjunto de depoimentos colhidos de jornalistas usuários do “Pré-Pauta”, que em 1985 atuavam em postos importantes da mídia. Ei-los:
UM GUIA SEGURO - "O Pré-pauta tem sido o guia mais seguro que utilizamos para ter acesso à produção científica da maior universidade do país. Antes dessa publicação chegar às nossas mãos, as pesquisas, teses e estudos de interesse jornalístico gerados pela USP, na imensa maioria dos casos, tornavam-se conhecido depois de sua publicação por revistas científicas. O Pré-Pauta é lido, os temas de interesse selecionados e, numa segunda etapa, entramos em contato com os editores para termos acesso aos professores autores dos textos que despertaram interesse. Invariavelmente, esse canal tem-se mostrado eficiente, aumentando o grau de confiança entre ambas as partes - mestres e repórteres - resultando em matérias mais completas." - Eurípedes Alcântara, editor de VEJA.
RESTITUIÇÃO DA CREDIBIIDADE - "O serviço de divulgação científica da USP, desenvolvido pelo "Pré-Pauta", conseguiu um feito admirável: demonstrar a cientistas que a imprensa pode traduzir para leigos, em linguagem correta e acessível, a importância de suas descobertas, e à imprensa, que ciência não é alquimia tramada magicamente em subterrâneos laboratórios. A forma como esse boletim semanal para jornalistas é feito parece ter restituído, a pesquisadores e cientistas, a credibilidade na imprensa, por muito tempo considerada, não sem razão, como sensacionalista, imprecisa e superficial."
"Ainda estamos muito longe do ideal do que deve ser a divulgação científica, até porque o trabalho desenvolvido pela USP é pioneiro e único no contexto da produção científica e acadêmica do país. Isso, além de impedir a análise comparativa, faz com que as informações originadas na Universidade de São Paulo não retornem à opinião pública analisadas e dirigidas nos demais centros científicos nacionais. Naturalmente, o que é feito na USP e divulgado pela imprensa é discutido em outros níveis e instituições, mas o debate não volta ao público, por falta de estrutura de divulgação de outras universidades e centros científicos. A proposta da USP pode ser o caminho para alterar essa situação."
"Do ponto de vista da mecânica do "Pré-Pauta", não há aspectos negativos a destacar. A periodicidade semanal é excelente, o informe conciso e as informações são precisas. Do ponto de vista institucional, considerando-se a USP como principal pólo de produção científica do país, o sistema implantado deveria ser levado para a discussão em outras universidades, com o objetivo de atingir a abertura científica em nível nacional". - Luís Carlos Torcato, pauteiro para Educação e Ciência, Folha de S. Paulo.
FONTE DE SUGESTÕES - "Pré-Pauta tem sido de grande valia na elaboração da pauta de reportagens de AFINAL, na medida em que possibilita um acompanhamento daquilo que a Universidade está produzindo, seja no plano intelectual ou de pesquisa e desenvolvimento. Tem saído do "Pré-Pauta" inúmeras sugestões de matérias para a nossa seção Seu Filho e de reportagens nas áreas de saúde, educação, tecnologia e outras".
"Adicionalmente, a relação de teses de mestrado e doutoramento permite um registro valiosos de temas que estão recebendo estudo mais profundo e sistemático, assim como uma ampliação do rol de fontes de referência sobre assuntos específicos". - Ari Schneider, secretário de redação, revista AFINAL.
ÓTIMO MATERIAL PARA A TV - "Na Globo, o Pré-Pauta me foi muito útil. Muitas reportagens do HOJE, JORNAL NACIONAL e JORNAL DA GLOBO foram retiradas do Pré-Pauta. Posso citar alguns exemplos: a matéria sobre a loja da Farmácia da USP foi lida e realizada para o jornal HOJE especial de sábado; foi no Pré-Pauta, também que ficamos sabendo da nova expedição à Antártica. A reportagem foi para o JORNAL NACIONAL. No Pré-Pauta soubemos da reativação do Museu de Arqueologia."
"Além de ser um boletim que traz assuntos interessantes (que resultam em excelentes reportagens de televisão), o Pré-Pauta coloca o jornalista em contato direto com a fonte que deseja. A gente não precisa telefonar para a USP inteira até achar o responsável por esta ou aquela pesquisa. Assim, no meu trabalho diário, como pauteira, o Pré-Pauta me traz sugestões, dicas, fontes, um ótimo material para reportagens." - Gloriete Treviso, pauteira de TV.
UMA NOVA RELAÇÃO COM A UNIVERSIDADE - "A imprensa e a universidade se debateram, durante muito tempo, com dois problemas que tinham uma raiz comum. A universidade gerava conhecimentos que poderiam melhorar a vida das pessoas, mas não tinha qualquer canal para divulgar ao público suas descobertas. A imprensa, por sua vez, ansiava por notícias e fontes de informações junto aos cientistas para cumprir sua obrigação de decifrar para seus leitores os males, as conquistas e descobertas de nossa, cada vez mais rápida, civilização."
"Durante muito tempo, os canais de comunicação entre jornalistas e cientistas estiveram bloqueados. Mas agora isto está mudando. E para nossa satisfação, publicações como o Pré-Pauta, editado pela USP, vêm transformando profundamente a qualidade do jornalismo brasileiro. Atualmente, nenhum editor consciente pode ignorar a existência do Pré-Pauta, pois isso seria fechar os olhos a toda a efervescência da maior concentração de cabeças pensantes do país, que é a USP."
"Já me utilizei do Pré-Pauta em várias ocasiões. Desde entrevistas com psicólogos sobre mudanças nos hábitos sexuais dos paulistanos alarmados com a AIDS, até o comportamento neurótico dos que trabalham em grandes escritórios, sem falar nas diversas teses científicas ou descobertas em áreas complexas das ciências, das quais, certamente, sequer ouviríamos falar se o Pré-Pauta não existisse."
"Acredito que essa publicação conquistará um espaço cada vez maior junto a revistas, jornais, TV e rádios. Afinal, sua importância cresce na exata medida em que a inteligência brasileira deixa os porões da subserviência aos interesse elitistas e vem à luta à procura de um caminho próprio, que leve às soluções democráticas dos problemas populares." - Leonardo Mourão, Editor-assistente da revista ISTO É.
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Vamos deixar o detalhamento do projeto “Pré-Pauta”, e o aprofundamento de outras questões levantadas por esta série, para um livro cujo texto está em elaboração, e que deverá ser editado no próximo ano, com o mesmo título da série: A Revolução das Fontes.
Entretanto, aos que se intersssam pelo assunto, e para amarrar as idéias, vale a pena reler, agora, o primeiro texto da série, que recebeu o título "Elas conquistaramo poder de agendar e rechear a noticia", e também um outro texto postado neste blog, sob o título "Jornalismo e Marketing de mãos dadas".
* Veja os capítuloss anteriores e outros textos na coiluna Pasta de Textos.
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