22/08/2007
Revolução das Fontes (V)
Texto de Carlos Chaparro

Reação jornalística,
uma experiência brasileira


O exemplo oferecido pelos jornalistas da Câmara dos Deputados e do Senado provou ser possível praticar uma Assessoria de Imprensa preocupada com o valor público da informação (ver capítulo anterior). Mas não era um caso isolado: também no espaço da iniciativa privada a rebeldia jornalística começava a plantar experiências inovadoras – e essa é uma história a resgatar.

A experiência pioneira deu-se em São Paulo, no ano de 1971. Os jornalistas Reginaldo Finotti e Alaor José Gomes fundaram a Unipress, com uma proposta nova de Assessoria de Imprensa. 

Eles trabalhavam juntos desde 1961, quando aceitaram o convite para montar o Setor de Imprensa da Volkswagen do Brasil. Alaor deixou para trás uma carreira promissora na Record e na Folha de S. Paulo; Reginaldo abandonou o jornalismo emocionante da “Última Hora” – e ambos colocaram competência e garra na experimentação de “um conceito de transparência,  nas relações da Volkswagen com a Imprensa e com a Comunidade”. Foi o que me disseram, em entrevista concedida os estudos que fiz sobre Assessoria de Imprensa.

Orientado por critérios jornalísticos, o Setor de Imprensa da Volkswagen, tornou-se fonte de consulta obrigatória para editores, pauteiros e repórteres de Economia das grandes redações. E o sucesso do trabalho acendeu em Reginaldo e Alaor a ambição profissional de ampliar horizontes: “Fundamos a Unipress, pensando fazer dela uma sucursal das redações, em especial dos jornais do Interior”, lembram eles.

A experiência da Unipress foi favorecida pela valorização das editorias de Economia, que tiveram seu crescimento estimulado como alternativa do jornalismo político, danificado pela repressão e pela censura. O jornalismo econômico passou a ser feito com seriedade, por bons profissionais. Transbordou, até, dos meios impressos para a mídia eletrônica.

A Unipress pôde consolidar um modelo jornalístico de Assessoria de Imprensa, atuando, principalmente, como alimentadora de pautas. Com uma tendência simples e lúcida: “Contamos toda a história ao jornalista e deixamos o aproveitamento a critério dele”. 

Dois anos depois, em 1973, surgiu no mercado a Mecânica de Comunicação Ltda., fundada por Enio Campoi, outro jornalista saído da indústria automobilística e que acreditava no mesmo conceito de Assessoria de Imprensa. Depois de Enio, outros profissionais de Jornalismo implantaram empresas de Assessoria de Imprensa, criando a base para um movimento de autonomia dessa atividade em relação às estruturas, teorias e práticas de Relações Públicas.

A “rebeldia” desenvolveu-se em duas vertentes:

1) A vertente sindical 

O sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo criou, em 1980, a comissão Permanente e Aberta dos Jornalistas em Assessorias de Imprensa. Ainda era presidente da entidade o respeitado Emir Nogueira, que faleceu antes de terminar o mandato.

Com o surgimento dessa Comissão, teve início um processo formal de se dar identidade jornalística à atividade de Assessoria de Imprensa. E deve registrar-se, aqui, que quem mais trabalhou na criação e consolidação desse processo foi a jornalista Marlene dos Santos. Foi sob a sua coordenação que, em 1983, se realizou o I Encontro Estadual dos Jornalistas em
Assessoria de Imprensa, do qual participaram 250 profissionais de São Paulo. No ano seguinte aconteceu o II encontro Estadual, com menos gente, mas maior significado político. Logo em seguida, o movimento ganharia dimensões mais amplas, com a realização do I Encontro Nacional de Jornalistas em Assessoria de Imprensa, em Brasília.

Na coordenação da comissão paulista estava, então, o jornalista Eduardo Ribeiro, empenhado, desde que assumira, em 1984, em concretizar o compromisso de produzir o primeiro Manual de Assessoria de Imprensa. O objetivo foi alcançado: em 1985, o II Encontro Nacional, realizado no Recife, aprovou o texto final do Manual, oficialmente editado e adotado pela Federação Nacional de Jornalistas Profissionais, no ano seguinte.

Estabelecia o Manual:

“(...) os profissionais de assessoria de imprensa são, antes de tudo, jornalistas. Eles vieram preencher uma lacuna atendida indevidamente por profissionais de outros setores, entre eles recursos humanos, marketing e promoções. Seu trabalho visa contribuir para o aperfeiçoamento da comunicação entre a instituição, seus funcionários e a opinião pública. Dentro de uma perspectiva social que privilegia essa última, a assessoria de imprensa agiliza e complementa o trabalho do repórter, subsidia-o e lhe oferece alternativas adequadas, garantindo o fluxo de informações para os veículos de comunicação – porta-vozes da opinião pública.”

Embora inspirado por objetivos predominantemente corporativos, com uma conceituação que pouco avançava em relação à Carta de Princípios de Ivy Lee, o Manual de Assessoria de Imprensa representou um avanço importante enquanto fato político-profissional, no processo da ocupação jornsalística do espaço da Assessoria de Imprensa.

2) A vertente de jornalistas-empresários

Em julho de 1986 surgiu a Associação Nacional das Empresas de Assessoria de Imprensa e Comunicação Social (ANECI), com Enio Campoi na presidência, Reginaldo Finotti e Alaor José Gomes entre os fundadores. Um ano depois, a ANECI já reunia mais de 30 agências do ramo. 

Nos Estatutos da Associação, o parágrafo terceiro do artigo II definia:

“Outras empresas que operem em ramos afins, como os de Publicidade e/ou Relações Públicas, somente serão admitidas na Associação por deliberação da Assembléia Geral, e, assim mesmo, se comprovarem, previamente, disporem e utilizarem, em seus quadros, de profissionais de imprensa, em número mínimo de dois, reconhecidos pelo Sindicato dos Jornalistas da respectiva localidade. Nestes casos, tais empresas terão de ser representadas, mediante prévio e formal credenciamento pela Diretoria da Associação, por um jornalista profissional designado, que terá prazo de carência de um ano para adquirir direito de voto.”

No Brasil teve início, portanto, um processo de ruptura entre a Assessoria de Imprensa e as suas raízes de Relações Públicas. Uma ruptura que se dava apenas no âmbito da definição de fronteiras profissionais. Mas que tinha em si, àquela época, um significado de repúdio aos usos e costumes não-jornalísticos das Relações Públicas, quando faziam a defesa ou a promoção das instituições e empresas pelos meios de comunicação de massa.  

Era um primeiro passo no rumo de uma prática de Assessoria de Imprensa com critérios de divulgação determinados pelo interesse público da informação.

***

No bojo desse movimento, e com a intenção de lhe dar consistência de idéias, dediquei o meu mestrado ao estudo e à experimentação de um projeto jornalístico de Assessoria de Imprensa, entendida como “a prática do Jornalismo na fonte, ou seja, na origem da notícia, para assegurar aos meios de comunicação informações de boa qualidade, sob o ponto de vista da técnica jornalística e da relevância social”.
Nos pressupostos assumidos pelo projeto, a Assessoria de Imprensa devia existir “somente em instituições que, por dever e/ou competência, geram atos e fatos de interesse público”.

Assumiu-se, pois, como preliminar exigência teórica, a necessidade de conceituar o que seja, em termos de Jornalismo, informação de interesse público.

- Próximo Capítulo: A questão do Interesse Público – conceitos e definições.

(Veja os capítulos anteriores e outros textos na coluna "Pasta de Textos")

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Comentários (1):
Comentário por Roberto Esteves
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