O "boom" de RP e Assessoria
de Imprensa no Brasil
As Relações Públicas tiveram no Brasil um vertiginoso desenvolvimento a partir de 1964. Com elas, generalizou-se, também, na iniciativa privada e no serviço público, a prática da Assessoria de Imprensa. E tal como aconteceu nos Estados Unidos no início do processo, as duas atividades atraíram muitos jornalistas.
Em 1968, já desvinculadas academicamente da área de Administração, e inseridas, como carreira e área de estudo, nos cursos de Comunicação, as Relações Públicas conquistaram regulamentação profissional muito abrangente, abrindo, mesmo, faces de colisão com outras profissões, em especial com o Jornalismo.
Foi um processo fortemente estimulado pela estratégia oficial de propaganda e divulgação do governo militar. Lembremos que, àquela época, a Assessoria Especial de Relações Públicas da Presidência da República ganhou espaço e força supra-ministerial. A então denominada AERP detinha largo poder sobre verbas e vagas: coordenava a rede governamental de divulgação, criava e difundia verdades oficiais, administrava a negociação política (e financeira) de espaços nos meios de comunicação. E, habilmente, estimulava a prática da auto-censura em jornais e jornalistas.
Com sua enorme força de barganha (sempre administrada em favor da boa imagem da ditadura), a AERP fez escola, tornando-se modelo para governos estaduais e municipais. E até mesmo para grandes empresas, a começar pelas estatais de maior porte.
O modelo foi consolidado - teórica e estrategicamente - no I Seminário de Relações Públicas do Executivo, realizado de 30 de setembro a 5 de outubro de 1968, no Rio de Janeiro.
Participaram do Seminário, além do pessoal da própria AERP. representantes dos 16 ministérios, da Agência Nacional, das estações oficiais de rádio, do Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística, da Associação Brasileira de Relações Públicas e até da Associação Brasileira de Imprensa, cujo presidente, Danton Jobim, fez a conferência de encerramento.
O Seminário debateu cinco grandes temais:
1) Organização e funcionamento dos Serviços de Relações Públicas nos órgãos da administração federal;
2) Normas de trabalho entre os diferentes serviços de Relações Públicasdos órgãos da administração federal e os veículos de Comunicação Social;
3) Diretrizes de Relações Públicas no Governo;
4) Promoção institucional do Governo;
5) Imagem do Governo - Opinião pública.
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Vale a pena repassar as principais sugestões e/ou conclusões aprovadas para cada um dos temais - e uso, aqui, dados do Relatório Final do Seminário, um documento precisoso.
A comissão que tratou do primeiro tema apoiou-se em alguns considerandos preliminares - um deles, este:"É finalidade precipua de Relações Públicas do Executivo a d ifusão correta da imagem do Governo". E recomendou a criação de Coordenações de Relações Públicas nos Ministérios, estruturadas em setores de Pesquisa e Promoção, Divulgação e Produção, e de Serviços Gerais. Caberia ao setor de Divulgação e Produção "a feitura de material informativo ou promocional e sua consequente divulgação".
A segunda comissão manifestou algumas preocupações de roupagem ética:
"OS Serviços de Relações Públicas deverão dispensar aos veículos de comunicação social tratamento atencioso” e fornecer-lhes “informações verídicas, objetivas”. Com uma ressalva: desde que tudo se enquadrasse no objetivo estratégico de "informar os diferentes públicos sobre a execução dos planos governamentais, notadamente os que visem estimular o desenvolvimento nacional para a melhoria das condições de vida do povo e o progresso do País, atraindo a sua compreensão, cooperação e integração nos objetivos comuns”. (grifo do autor)
Essa diretriz em nada contrariava as conclusões das outras comissões. Tudo se encaixava com perfeição, por exemplo, nas recomendações apresentadas pela comissão que, no quinto tema, tratou da imagem do Governo na opinião pública. Esse grupo fez dez recomendações, das quais a primeira é síntese: "Adoção de uma política global de comunicação social que permita de fato a integração do povo com o governo. Tal política, para ser realmente efetiva, deve tornar-se uma constante para toda e cada uma das realizações do governo."
Não pode deixar de ser transcrita a última das dez recomendações, pois tem significação histórica especial: "Aproveitamento integral da figura do Presidente, no seu as aspeto humano, moderado e compreensivo, para caracterizar toda a campanha orientada no sentido da valorização do homem, a única suscetível de ciar uma imagem efetiva e imediato do governo.”
Explica-se assim, em boa parte, o porquê da surpreendente popularidade alcançada pelo general Garrastazu Médici, cuja fotografia chegou a disputar espaço com a imaqem do venerado padre Cícero, nas casas pobres dos camponeses nordestinos.
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Concentraremos, em outra parte deste trabalho, a ser ainda publicada, a reflexão teórica sobre as funçòes sociais da Informação, e isso nos levará a considerações sobre a interferência nociva da propaganda no processo de informar a opinião pública. Consideramos oportuno, porém, antecipar um trecho do livro A Mistificação das Massas pela Propaganda Política, um clássico, no qual Serge Tchakhotine escreve o seguinte, ao analisar as técnicas da propaganda nazista:
“Quais erarn, então, os meios de influenciar as massas? Dissemos que havia dois grupos de pessoas; por conseguinte, deviam existir duas formas de propaganda: uma dirigindo-se aos dez por cento, as pessoas bastante seguras de si para resistir à sugestão brutal; a outra, aos 90 por cento, aos passivos ou hesitantes, que tinham seus mecanismos psíquicos acessíveis à sugestão emocional (...).”
“
Essas duas formas de propaganda, que se dirigiam aos dois grupos de pessoas, diferiam então em principio: a primeira agia por persuasão, por raciocínio; a segunda, por sugestão, e deflagrava ora o medo, ora seu complemento positivo – oentusiasmo, o delírito, tanto estático como furioso.”
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Compreenderá melhor a aplicabilidade do texto de Tchakhotine à realidade brasileira da era Médici quem se lembrar que, naquela época de feroz repressão e censura implacável, o tom do governo era dado por uma propaganda de euforia e ufanismo: slogans do tipo "Ame-o ou deixe-o"; a popularização subliminar de um carisma Médici; a publicidade festiva dada a obras faraônicas como a ponte Rio-Niterói e a Transamazõnica; o aproveitamento oportunista da vitória na Copa de 70 - e tantas outras ações e táticas manipuladoras da opinião pública.
Nesse veio surgiu um atrativo mercado de trabalho para jornalistas, generosamente solicitados a ocupar o espaço crescente das Assessorias de Imprensa, sob a tutela formal e/ou cultural das Relações Públicas.
O uso intensivo da propaganda política pelo regime militar atuou como vitamina de crescimento sobre as Relações Públicas. E dentro delas, sobre a atividade de Assessoria de Imprensa, num processo incrementado pela euforia do "milagre econômico", financiado pela abundância de petrodólares.
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Aconteceu, então, o dilúvio do press-release. E com o press-release, todo um conjunto de artifícios de persuasão, às vezes de desinformação, numa prática de divulgação que, como diria Frederick E. Lufnley (ciado por CHILDS, op. cit. p.100), "impede o desenvolvimento das faculdades criticas, gera o medo e a suspeita, e produz uma escravidão intelectual."
Oito anos depois do histórico Seminário da AERP realizado no Rio de Janeiro, o jornalista Rangel Cavalcante traçou um retrato do quadro da influência nociva dessa cultura do press-release propagandístico, sobre o jornalismo. Em artigo publicado pelo Jornal do Brasil, a 29 de março de 1976, escrevia Rangel:
“No Brasil , sobretudo em Brasília, os órgãos públicos, especialmente os Ministérios e Departamentos Federais, jogam milhjões de cruzeiros por ano nas cestas de papéis velhos de jornais, sob a forma de comunicados e press-releases mal feitos, que frequentemente nada contêm de interesse dos leitores. Neles predominam expressões como "dinâmico governador", "eficiente diretor","zeloso dirigente" etc..”
“Nessa parafernália, quem está perdendo é o repórter. Em Brasília, onde o básico da i nf ormaçcío é oficial, ele espera um dia inteiro nas ante-salas dos Ministros para, ao fim do dia, receber uma folha de papel contendo um texto que, quase sempre, nada vale como noticia. Alguns profissionais se tornam tão viciados, que resumem a sua atividade em reescrever o release, sem acrescentar-lhe nada, resultando daí uma noticia pobre e sem conteúdo informativo.”
Mas havia, no cenário da comunicação institucional, demonstrações de Assessor!a de Imprensa praticada por critérios jornalísticos. O próprio Rangel Cavalcante, em seu artigo, salientava a qualidade do trabalho da Assessoria de Imprensa da Câmara dos Deputados, onde se produzia um boletim diário (“Câmaras é Notícia e Informação”) que "funciona como um órgão de consulta obrigatório para os jornalistas que cobrem as atividades da Casa". Também no Senado, segundo Rangel Cavalcante, o trabalho de Assessoria de Imprensa permitia aos jornalistas "dispor de um material de consulta não dirigido e onde nem um deputado ou senador é chamado de ilustre, eficiente, dinâmico ou brilhante".
(Próximo Capítulo: “Reação Jornalística, uma experiência brasileira”)
- Veja capítulos anteriores, e outros textos, na
coluna "Pasta de Textos"
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