24/08/2012
Tânia Castello, prezada amiga:
Em primeiro lugar, quero agradecer-lhe a oportunidade e a motivação que a sua Maria Miss me dá, de voltar a escrever sobre teatro. Fui vê-la no primeiro espetáculo da temporada, dia 29 de maio, no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura (Conjunto Nacional). E com dois meses de atraso lhe digo agora: Parabéns por sua Maria Miss!
Na verdade, havia pensado – e lhe prometi isso, lembra-se? – escrever sobre as espertezas ocultas com que Flausina virou Maria Miss. Queria escrever, principalmente, sobre a ousadia criativa de você, da sua arte e das artes do seu grupo, que tão bem captaram a mulher inventada por Guimarães Rosa, reinventada no palco.
Como você sabe, na minha carreira de jornalismo, já fiz crítica de teatro e de TV nos meios impressos. Para fazer com independência crítica de teatro e de TV, usei a plateia, apenas a plateia, como posto de observação dos espetáculos teatrais. E a poltrona, na minha casa, para assistir aos programas de TV sobre os quais deveria opinar.
Desta vez foi diferente. Fui à estreia de Maria Miss como seu convidado. E pela primeira vez, assisti a um espetáculo na qualidade de amigo da atriz principal. Por isso, não vou escrever como crítico, mas como amigo. E como amigo, optei por uma conversa com você, trazendo-a a este Postigo do Diálogo, também aberto ao mundo.
Felizmente, e por merecimento, a temporada do espetáculo no Teatro Eva Herz foi estendida até fins de agosto. Terei, portanto, oportunidade de voltar à sua plateia.
E voltarei, Tânia. Em algum dia deste agosto, sem que você saiba, e sem as tensões da estreia, pagarei ingresso e lá estarei, escondido em alguma poltrona mal iluminada, no fundo da sala. Não tanto para melhorar a relação crítica com o espetáculo, mas para me imiscuir nele, como partícipe do jogo inteligente que Guimarães Rosa nos propõe, por vosso intermédio. Estarei especialmente atento às simbologias da encenação e da cenografia, às subjetividades de gestos e gestuais, às polissemias da linguagem guimaraneana. E aos sentidos ocultos que recheiam os ditos e não-ditos do vosso texto.
Sei que me aguardam 50 minutos de cumpIicidade inteligente.
Grande abraço, extensivo ao João Inocêncio, seu fiel escudeiro.
Carlos Chaparro
Em “Maria Miss”, interpretada por Tânia Castello, Guimarães Rosa sobe ao palco, com seu humanismo radical.
Conversa com Tania Castelo, sobre a enorme ousadia transformar em teatro a genialidade vocabular de Guimarães Rosa. “E vocês o fizeram. Muito bem.”
Tânia Castello, prezada amiga:
Em primeiro lugar, quero agradecer-lhe a oportunidade e a motivação que a sua Maria Miss me dá, de voltar a escrever sobre teatro. Fui vê-la no primeiro espetáculo da temporada, dia 29 de maio, no Teatro Eva Herz, da Livraria Cultura (Conjunto Nacional). E com dois meses de atraso lhe digo agora: Parabéns por sua Maria Miss!
Na verdade, havia pensado – e lhe prometi isso, lembra-se? – escrever sobre as espertezas ocultas com que Flausina virou Maria Miss. Queria escrever, principalmente, sobre a ousadia criativa de você, da sua arte e das artes do seu grupo, que tão bem captaram a mulher inventada por Guimarães Rosa, reinventada no palco.
No mínimo, é uma enorme ousadia transformar em teatro a genialidade vocabular de Guimarães Rosa. Sem a fraudar. E vocês o fizeram. Muito bem.
Como você sabe, na minha carreira de jornalismo, já fiz crítica de teatro e de TV nos meios impressos. Para fazer com independência crítica de teatro e de TV, usei a plateia, apenas a plateia, como posto de observação dos espetáculos teatrais. E a poltrona, na minha casa, para assistir aos programas de TV sobre os quais deveria opinar.
Desta vez foi diferente. Fui à estreia de Maria Miss como seu convidado. E pela primeira vez, assisti a um espetáculo na qualidade de amigo da atriz principal. Por isso, não vou escrever como crítico, mas como amigo. E como amigo, optei por uma conversa com você, trazendo-a a este Postigo do Diálogo, também aberto ao mundo.
Assim, com sinceridade de amigo, digo-lhe que, depois de assistir à estreia de Maria Miss, planejei voltar ao teatro duas ou três semanas depois para, escondido em algum lugar menos iluminado do fundo da plateia, assistir ao espetáculo com olhos de público, para descobrir e avaliar a evolução artística da encenação e das interpretações, no conjunto e individualmente.
Um bom espetáculo e um bom elenco jamais alcançam o ápice na estreia. De modo especial quando existe o desafio de interpretar um texto que, nas poucas falas e nos muitos silêncios, oferece enorme potencial de crescimento em intensidade, revelações e novos entendimentos. Até porque você e os atores Cacá Amaral e Daniel Alvim, sob a criativa direção de Yara de Novaes, colocaram no palco, e nas emoções dos espetadores, uma narração com síntese estética poeticamente fiel ao humanismo radical de Guimarães Rosa. E Guimarães Rosa sempre se redescobre a cada releitura.
Um bom espetáculo e um bom elenco jamais alcançam o ápice na estreia. De modo especial quando existe o desafio de interpretar um texto que, nas poucas falas e nos muitos silêncios, oferece enorme potencial de crescimento em intensidade, revelações e novos entendimentos. Até porque você e os atores Cacá Amaral e Daniel Alvim, sob a criativa direção de Yara de Novaes, colocaram no palco, e nas emoções dos espetadores, uma narração com síntese estética poeticamente fiel ao humanismo radical de Guimarães Rosa. E Guimarães Rosa sempre se redescobre a cada releitura.
Felizmente, e por merecimento, a temporada do espetáculo no Teatro Eva Herz foi estendida até fins de agosto. Terei, portanto, oportunidade de voltar à sua plateia.
E voltarei, Tânia. Em algum dia deste agosto, sem que você saiba, e sem as tensões da estreia, pagarei ingresso e lá estarei, escondido em alguma poltrona mal iluminada, no fundo da sala. Não tanto para melhorar a relação crítica com o espetáculo, mas para me imiscuir nele, como partícipe do jogo inteligente que Guimarães Rosa nos propõe, por vosso intermédio. Estarei especialmente atento às simbologias da encenação e da cenografia, às subjetividades de gestos e gestuais, às polissemias da linguagem guimaraneana. E aos sentidos ocultos que recheiam os ditos e não-ditos do vosso texto.
Sei que me aguardam 50 minutos de cumpIicidade inteligente.
Grande abraço, extensivo ao João Inocêncio, seu fiel escudeiro.
Carlos Chaparro
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