30/09/2008
Publicado em: Postigo do Diálogo

Ponto a Ponto,
enlaces de inclusão

Tenho uma amiga chamada Silvia. Silvia Valentini.
Vejo-a no outro lado do “Postigo”, pronta para o diálogo. Mas não posso mostrar o rosto dela. Com firmeza irredutível, proibiu-me o uso de imagens suas. “O que importa é mostrar a máquina” – e me mandou a foto dessa “Heidelberg” legítima, com legenda de quase adoração: “Ela realiza um trabalho lindo, imprimindo em braille suave, com alta definição, conteúdos que ajudam os deficientes visuais a enxergar o mundo e a entender o que nele acontece e se pensa”.

Você está enganada, Silvia. Apesar da beleza das fotos que a mostram, e da qualidade técnica dos relevos que imprime, a máquina pouca importância tem. Sem o seu sonho, Silvia, a máquina seria apenas um trambolho. O que importa, o verdadeiramente lindo, é o presente que me chegou às mãos: este Boletim Ponto a Ponto que, com a ajuda financeira da Petrobrás, você agora coloca nos circuitos da vida. E me refiro à vida pela qual você tanto luta, há anos. A vida elaborada pelas energias fundidas do Amor e do Conhecimento.

Vida da qual tantos cegos continuam excluídos, em particular os surdocegos, para os quais só o sistema de comunicação dos pontos em relevo, aperfeiçoado por Louis Braille, garante acesso às informações, aos fatos e às idéias que movem o mundo.

Pois eles têm agora o Boletim Ponto a Ponto, ápice enfim alcançado pelo “Projeto Ponto a Ponto”, ao qual você há 14 anos se dedica, em caminhadas quase solitárias. Nessa luta, você inventou formas de uso do braille pelos deficientes visuais. Reduziu-lhes as penas da solidão. E lhes ampliou as chances de interação criativa com o universo circundante.

Na dimensão abstrata que dá importância ao Boletim, esse Ponto a Ponto parido por você tem a maravilhosa capacidade de tecer enlaces vitais de inclusão social, cultural e política. Por isso lhe digo, Silvia: não, não é a máquina impressora que estabelece a relação com a vida, mas o periódico impresso em braille que você gestou. Na periodicidade mensal anunciada, ele será fonte de vida nova para milhares de pessoas. Vida sem limites. Porque essa é a força do braille, se bem entendi a frase de que você tanto gosta: “Uma folha escrita em braille  passa a ser uma peça tridimensional que faz superar limites”.

E tudo isso, como o próprio Luis Braille escreveu, para que as pessoas cegas não continuem “menosprezadas e dependentes das pessoas que enxergam”.

Em nome dos que acreditam no direito universal à vida plena, muito obrigado, Silvia Valentini!

E aqui fico no aguardo do número 2 do Boletim.

Carlos Chaparro


____________________

P. S. - Peço-lhe licença, Silvia, para transcrever neste blog o texto do editorial que você assina, na apresentação da primeira edição do Boletim Ponto a Ponto.
Será essa, sem dúvida, a melhor maneira de capacitar os meus leitores para o entendimento lúcido do lindo projeto Ponto a Ponto. Aos interessados na leitura, basta clicar AQUI.


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18/09/2008
Publicado em: Postigo do Diálogo

Lourenço Diaféria,
o cronista que não morreu.

Embora com mente treinada pelos rigores da lógica e da filosofia da ciência, gosto de acreditar em coisas que não se podem provar. Acredito, por exemplo, que os bons cronistas jamais morrem. Afinal, pertence-lhes o dom de serem criadores dos únicos textos perenes do jornalismo. Por isso, recuso-me a falar sobre Lourenço Diaféria como se ele estivesse morto.

Li a notícia nos jornais de hoje. E joguei-os no lixo.

Diz-se por aí, e a maioria de nós acredita, que jornais sérios não mentem. Pois desta vez mentiram. Estão mentindo. E jornal que mente a gente joga fora. Foi o que fiz. É preciso que alguém diga a esses jornalistas que um cronista com a sensibilidade poética, o vigor criativo, a visão ética de mundo e a coragem intelectual de Lourenço Diaféria jamais morre.

É nisso que acredito.

Na materialidade dos fatos, pode até ser que ele tenha se separado de nós, por uns tempos, para experimentar caminhadas de poeta da prosa em veredas do além. Os jornais ousaram chamar a isso de morte. Pois não entenderam nada. Falam de Diaféria, o meu amigo Lourenço, como se ele fosse uma pessoa comum, dessas que desaparecem da vida quando se esgota o tempo que lhes cabe.

Não entenderam, por exemplo, que Lourenço Diaféria jamais foi homem do tempo, do miserável tempo esgotável. Fazia e faz parte das infinitudes do espaço – o espaço da arte, das idéias, da poesia, da solidariedade humana.

O espaço da vida.

Por isso, jamais fenece o que Diaféria, o meu amigo Lourenço, nos escreveu ao longo de tantos anos, a nós e ao mundo, no seu ofício de cronista. Escreveu tanto, e tão bem, que se deu até ao direito de não escrever mais. 

Certamente por boas razões. Uma delas, a de que podemos reler, a qualquer dia, a qualquer hora, a histórica crônica de 1 de Setembro de 1977. E que faço questão de transcrever, para provar que os jornais mentiram ao anunciarem a morte do cronista.

Diaféria, o meu amigo Lourenço, está vivo – tão vivo quanto a coragem, a beleza, o esplendor cívico e humanista da imortal crônica que o levou à prisão, mas que ajudou o Brasil a libertar-se da ditadura.

Com vocês, Lourenço Diaféria, em sua arte e em sua coragem de cronista!


Carlos Chaparro



************



HERÓI. MORTO. NÓS.

(Crônica lançada ao mundo
a 1º de setembro de 1977)


Não me venham com besteiras de dizer que herói não existe. Passei metade do dia imaginando uma palavra menos desgastada para definir o gesto desse sargento Sílvio, que pulou no poço das ariranhas, para salvar o garoto de catorze anos, que estava sendo dilacerado pelos bichos.

O garoto está salvo. O sargento morreu e está sendo enterrado em sua terra.

Que nome devo dar a esse homem?

Escrevo com todas as letras: o sargento Silvio é um herói. Se não morreu na guerra, se não disparou nenhum tiro, se não foi enforcado, tanto melhor.
Podem me explicar que esse tipo de heroísmo é resultado de uma total inconsciência do perigo. Pois quero que se lixem as explicações. Para mim, o herói -como o santo- é aquele que vive sua vida até as últimas consequências.

O herói redime a humanidade à deriva.

Esse sargento Silvio podia estar vivo da silva com seus quatro filhos e sua mulher. Acabaria capitão, major.

Está morto.

Um belíssimo sargento morto.

E todavia.

Todavia eu digo, com todas as letras: prefiro esse sargento herói ao duque de Caxias.

O duque de Caxias é um homem a cavalo reduzido a uma estátua. Aquela espada que o duque ergue ao ar aqui na Praça Princesa Isabel -onde se reúnem os ciganos e as pombas do entardecer- oxidou-se no coração do povo. O povo está cansado de espadas e de cavalos. O povo urina nos heróis de pedestal. Ao povo desgosta o herói de bronze, irretocável e irretorquível, como as enfadonhas lições repetidas por cansadas professoras que não acreditam no que mandam decorar.

O povo quer o herói sargento que seja como ele: povo. Um sargento que dê as mãos aos filhos e à mulher, e passeie incógnito e desfardado, sem divisas, entre seus irmãos.

No instante em que o sargento -apesar do grito de perigo e de alerta de sua mulher- salta no fosso das simpáticas e ferozes ariranhas, para salvar da morte o garoto que não era seu, ele está ensinando a este país, de heróis estáticos e fundidos em metal, que todos somos responsáveis pelos espinhos que machucam o couro de todos.

Esse sargento não é do grupo do cambalacho.

Esse sargento não pensou se, para ser honesto para consigo mesmo, um cidadão deve ser civil ou militar. Duvido, e faço pouco, que esse pobre sargento morto fez revoluções de bar, na base do uísque e da farolagem, e duvido que em algum instante ele imaginou que apareceria na primeira página dos jornais.

É apenas um homem que -como disse quando pressentiu as suas últimas quarenta e oito horas, quando pressentiu o roteiro de sua última viagem- não podia permanecer insensível diante de uma criança sem defesa.

O povo prefere esses heróis: de carne e sangue.

Mas, como sempre, o herói é reconhecido depois, muito depois. Tarde demais.

É isso, sargento: nestes tempos cruéis e embotados, a gente não teve o instante de te reconhecer entre o povo. A gente não distinguiu teu rosto na multidão. Éramos irmãos, e só descobrimos isso agora, quando o sangue verte, e quanto te enterramos. O herói e o santo é o que derrama seu sangue. Esse é o preço que deles cobramos.

Podíamos ter estendido nossas mãos e te arrancando do fosso das ariranhas -como você tirou o menino de catorze anos- mas queríamos que alguém fizesse o gesto de solidariedade em nosso lugar.

Sempre é assim: o herói e o santo é o que estende as mãos.

E este é o nosso grande remorso: o de fazer as coisas urgentes e inadiáveis -tarde demais.
                                                    Lourenço Diaféria
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25/08/2008
Publicado em: Postigo do Diálogo

Homenagem
a um ser humano
que ensina
solidariedade


Dedico este espaço, hoje, ao meu amigo Sérgio Gomes, o inventor da Oboré e de quase tudo o que nessa casa de sonhos se realiza. Com aquele bigode de português beirão do século XIX, a enfeitar um corpanzil de quase dois metros, Serjão pode até assustar quem não o conhece e que por ele passe em alguma das ruas da Vila Buarque, bairro do qual faz parte.

Também a mim ele me assusta, mas não por causa da exuberância desgrenhada do bigode. Nem do gigantismo do corpo. Nem do jeitão hippie que lhe marca o visual . Ele me assusta e me encanta pelas ousadias às vezes imprudentes com que gesta, acalenta e realiza sonhos humanistas. Sempre de olho em ganhos sociais, jamais em lucros financeiros.

Por causa desse visceral desprezo do Serjão pelos argumentos financeiros, já cheguei a temer pela sobrevivência da sua Oboré. Mas, além do poder de sonhar e realizar sonhos, você, Sérgio Gomes, deve ter também a proteção inspiradora de algum santo muito forte, cúmplice das aparentes maluquices com que, continuamente, você alarga os planos de vôo da sua Oboré. Desconfio, até, que além da proteção desse santo forte e cúmplice, algum anjo da guarda, quem sabe se com nome de mulher, talvez Ana, talvez Luíza, faz na Oboré a permanente vigília da prudência.

Sérgio Gomes é, para mim, símbolo vivo do mais bonito e emocionante sentimento universal, a solidariedade. Sempre que julgou ou julga de justiça, foi e é solidário nas lutas políticas que exigem grandes gestos de coerência e entrega, mesmo que à custa de dores que só os torturados conhecem. A mesma solidariedade de que é capaz quando se trata de olhar carências de quem está ou passa por perto.

Sem que me tenhas dito, amigo, porque esses são segredos teus, sei que quando o acaso assim solicita, despes a camisa para dá-la a alguém que dela precise. Até porque voltar para casa sem camisa ou sem sapatos pouco importa, desde que por boas razões – e te peço desculpas pelo avanço indiscreto no teu mais bem guardado território de intimidade pessoal.

Mas faço-o, Sérgio, para dizer ao planeta, em geral, e a alguém em particular, que a ninguém neste mundo é dado o direito de te faltar ao respeito. Quaisquer que sejam as explicações e as circunstâncias. E mesmo que o agressor esteja envolto em bandeiras sindicalistas.

É o que, creio, basta dizer-te, como amigo. Ainda que com algum atraso.


Carlos Chaparro

* Leia os textos anteriores do "Postigo"
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* Não perca, no site www.comunicaçãoecrise.com, aqui linkado, mais um texto do professor João José Forni. Desta vez, ele escreve sobre a institucionalizada bisbilhotice dos grampos.
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ONU anuncia vencedores do Troféu Especial de Imprensa amanhã

A cerimônia de anúncio dos cinco vencedores será no dia 7 de outubro, às 10 horas, no Espaço Vladimir Herzog do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo. A entrega dos troféus acontecerá no dia 27 de outubro, no Teatro da Universidade Católica de São Paulo, a partir das 19h30, durante a cerimônia do 30º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog.
"Todo o homem tem direito à liberdade de opinião e de expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios, independentemente de fronteiras."
(Artigo 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos)