24/01/2012
Publicado em: Postigo do Diálogo

Conversa com
Marcelo Rossi, mito
da religiosidade ingênua


Caro padre Marcelo:

Depois de muito pensar, resolvi colocá-lo no outro lado deste Postigo aberto, para uma conversa que dificilmente ocorreria de outra maneira. E que, dada a complexidade dos assuntos que a motivam, deve ser conversa de rigorosa precisão nas palavras e de plena clareza nas idéias.

A decisão final de lhe abrir este Postigo do Diálogo foi tomada depois que, faz poucos dias, numa igreja comum da zona norte de São Paulo, ouvi a homilia de um jovem sacerdote, cujo nome nem sei. Mas que, em suas formas de dizer, pensar e agir, se agigantou como antítese do padre Marcelo.

O senhor, padre Marcelo, com artes, técnicas, truques e talentos que lhe dão competências de grande comunicador, transforma pessoas em multidões manobráveis. Faz isso deliberadamente e com inegável sucesso. Já aquele jovem sacerdote, em sua homilia, usou o convite ao pensar para seguir o caminho inverso: olhando a pequena multidão que tinha à sua frente, fragmentou-a em pessoas pensantes, críticas, livres, capazes de enxergar em si próprias, e na verdade particular de suas vidas, argumentos para um agir cristão inteligente, sem fugas ao mundo real das fragilidades e das limitações.

Dele, não ouvi uma só palavra ou entonação, não lhe vi um só gesto, nem qualquer gestualidade, que cultivassem ou incentivassem a religiosidade ingênua aberta a crendices e superstições, desvios com os quais se deforma, por aí, a virtude da Esperança, principalmente nas camadas mais pobres e sofredoras da população, que tanto precisam de razões humanas para assumir, em lutas, o próprio destino.

Pois é a Esperança, padre Marcelo (já o dizia dom Helder Camara), que dá razão de ser e energia às boas lutas da vida. Lutas por Dignidade, por exemplo. E por Justiça, por Liberdade, por Democracia. Sem Esperança, não há por quê nem como lutar por esses valores.

O senhor, padre Marcelo, melhor do que eu, sabe o quanto a religiosidade ingênua serve de fermento à formação e ao controle de multidões emocionalmente oscilantes, submissas aos ventos da demagogia, quaisquer que sejam ou de onde venham esses ventos – de padres, bispos, pastores, governantes ou militâncias políticas. Mesmo assim, em conceitos, cantos e “comandos”, o senhor dissemina a religiosidade ingênua – e espero que me dispense de comprovações, tantas e tão perceptíveis elas são nas missas da Rede Globo, assim como no seu site e nos programas radiofônicos, diários, pela Rádio Globo.

Sei, padre Marcelo, que pode haver certa dose de injustiça nestas minhas avaliações, já que o senhor está submetido aos deveres contraditórios de tarefas ou missões igualmente contraditórias: ser, de um lado, profeta de Deus no mundo dos pessoas, que devem ser tratadas como criaturas dignas, livres, inteligentes, com vontade própria; de outro lado, ser comunicador amarrado por contrato à poderosa Rede Globo, com a obrigação de lhe garantir a contrapartida de altas audiências, o que pressupõe a obrigação de seduzir e/ou manipular grandes públicos com liturgias de show-business – e para isso servem as multidões oscilantes e os talentos do comunicador.

Sei também, padre Marcelo, que o senhor construiu essa posição de condutor de multidões para estabelecer uma frente de relação de forças com o crescente poder comunicacional dos pregadores-empresários neopentecostais. Temos, aí, a terceira vertente do problema. Nessa responsabilidade assumida, não devem ser poucas, nem pequenas, as tentações e as necessidades táticas de “jogar o mesmo jogo”. E quando assim é, se assim for, perde-se a decência religiosa. Inevitavelmente.

Sei, ainda, padre Marcelo, que não é fácil conciliar, dentro de padrões éticos e morais aceitáveis, tão divergentes interesses, nem todos santificantes. Não sei, porém, como ajudá-lo, padre, a não ser da maneira que aqui exercito com perigosa e talvez inconveniente sinceridade: colocar no ar argumentos de reflexão que nos ajudem – a mim, ao senhor e às pessoas que aos milhões o seguem ou procuram – a ter uma relação crítica com as contradições dessa face eletrônica da Igreja Católica, onde o senhor, padre Marcelo Rossi, atua e se movimenta como estrela maior.

De resto, se o quiser usar, este é um espaço à sua disposição.

Cordialmente,


Carlos Chaparro
____________________________________________

* P.S. - Só mais uma coisa, padre Marcelo - e este é um lembrete que deveria fazer parte da lista de deveres éticos de todos os que lidam com comunicação massiva: quanto maior o poder de convencimento e mobilizaão do comunicador, maior, também, o seu dever de educar - não multidões, mas pessoas.
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24/10/2011
Publicado em: Postigo do Diálogo

“Malfeito”, presidente
Dilma, é termo
que não ajuda no
combate à corrupção

Permita-me, senhora Presidente, que em jeito de carta aberta, torne público o recado contido no título acima.  Malfeito, palavrinha que a senhora tanto gosta de repetir quando anuncia o elogiável compromisso de conter e punir atos criminosos no serviço público,  é termo inadequado para o combate à corrupção.

Mais do que inadequado, é também termo perigoso, na função semântica eufemística que a senhora lhe atribui, com o evidente propósito de evitar a palavra corrupção. E perigoso em especial quando, com tal função, sai da boca mais poderosa da Nação. Perigoso, sim, senhora Presidente, porque o termo “malfeito”  reduz a simples atos criminosos  individuais a organização sistêmica da corrupção, que tem estrutura, costumes, argumentos, saberes, ações e interações de crime organizado

Como espécie de crime organizado, a corrupção pode até levar uns trancos circunstanciais com a demissão deste ou daquele ministro, ou com a condenação de um ou outro “laranja”  do ramo - como esses, por exemplo, que dão identidade jurídica a organizações fantasmas, para funcionarem como bueiros das redes ocultas de dutos criminosos por onde circulam as verbas públicas roubadas sob avais oficiais.

Em seu artigo de domingo passado (23/10), no Estadão, o jornalista, professor e cientista político Gaudêncio Torquato traçou um perfil impressionante do sistema, oferecendo, até, uma sigla nova à cultura política brasileira: PNBC – Produto Nacional Bruto da Corrupção.

Veja só, senhora Presidente, o tamanho do monstro descrito pelo professor Torquato, nas 130 palavras que do citado artigo recorto:

“O tamanho da encrenca que põe sob suspeição as organizações não governamentais (ONGs), (...) pode ser aferido por esta ordem de grandeza: o País abriga cerca de 350 mil entidades de assistência social, que empregam 2,5 milhões de pessoas e 15 milhões de voluntários; entre 2004 e 2010, esse conglomerado recebeu dos cofres públicos R$ 23,3 bilhões, uma evolução de 180% em seis anos. Parcela ponderável dessa montanha de recursos entra, escancarada ou sorrateiramente, na composição do Produto Nacional Bruto da Corrupção (PNBC), entendido como o somatório das contas da rapinagem e dos conluios que, por aqui, assumem forma de licitações “batizadas”, comissões pagas a intermediários, superfaturamentos de obras e produtos, emendas em projetos de parlamentares para regiões e, coroando a engenharia desse poder invisível, convênios com ONGs que semeiam joio.”

Esse é apenas um pedaço do importante e oportuno artigo assinado pelo professor Gaudêncio Torquato no seu espaço dominical, e cuja leitura deveria ser recomendada pela Presidência da República aos altos escalões do governo.

Aliás, penso que também à Presidente da República faria bem a leitura do artigo. Com dados e ideias,Torquato ajuda-nos a entender que o mal a combater, a CORRUPÇÃO,  tem estrutura e poder de sistema criminoso inteligente, endemicamente enraizado na máquina político-administrativa da coisa pública. Sistema que claramente favorece elites de todos os matizes ideológicos, encasteladas no poder. E que jamais será combatido de verdade com eufemismos medrosos.

Como sistema, a corrupção (não o “malfeito”) desdobra-se em três vertentes operacionais, tão complementares quanto solidárias: a compra de decisões, por paga direta ou por meio de comissões; o nepotismo, que em terras de Santa Cruz teve como primeiro arauto o escriba Pero Vaz de Caminha; e o peculato, cuja prática no Brasil, além das modalidades ilegais, viceja sob a proteção de leis permissivas que favorecem, por exemplo, as escandalosas mordomias e o descarado empreguismo, nos três poderes da República.

Com os aperfeiçoamentos da democracia, o Estado brasileiro tem hoje instrumentos legalmente aptos para o combate à corrupção. Mas, até para fortalecer o aparato legal e institucional já existente, e dada a gravidade dos prejuízos (sociais, políticos e culturais) causados ao País pelos corruptos organizados, a Nação precisa que a senhora, como Presidente da República, assuma atitudes e decisões político-administrativas de claro e vigoroso combate aos descaminhos do dinheiro público. Começando, quem sabe, pela elaboração e implantação de um protocolo ético para as futuras alianças partidárias, já que as atuais estão contaminadas pelo degradante lodaçal da corrupção.

Da minha parte, apenas mais uma sugestão: acabe com a alegoria semântica do “malfeito”, senhora Presidente! Trata-se de cacoete retórico que deforma a identidade de governante decidida e rigorosa que a opinião pública já lhe atribui - acredito que merecidamente.

E é tudo, por hoje.

Respeitosamente, Carlos Chaparro.


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Leia também, na seção "Em jeito de crônica":

O esporte da corrupção legal

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* Está no ar mais um texto em versão PDF, este sobre o tema "IDEIAS PARA UM NOVO JORNALISMO NOS MEIOS IMPRESSOS". (Links em "Recomendações", na coluna da direita).

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02/10/2010
Publicado em: Postigo do Diálogo

Obrigado pelo muito
que devemos ao “Jornalistas&Cia!

Caro amigo Eduardo Ribeiro:

Por alguns motivos (um deles, o inesperado probleminha de saúde que há dias me atrapalha; outro, de menos peso, e que você conhece, a minha congênita alergia a grandes festanças sociais), não pude ir ao Baile da Imprensa, comemorativo do 15º aniversária do teu e nosso “Jornalistas&Cia”. Peço-te desculpas públicas, mesmo sabendo que estar eu presente ou ausente em nada alteraria o brilho e a importância da grande  festa. Mas aqui, neste espaço onde mando e posso, faço questão de proclamar que considero o “J&C” o mais importante projeto brasileiro não acadêmico de informação e debate sobre comunicação em geral, e sobre jornalismo em particular. E declarar que vejo na ambição e no sucesso desse projeto o teu perfil de empreendedor que tão bem sabe combinar competência e idealismo, em doses reciprocamente complementares.

E peço-te licença, amigo Edu, para, em curta homenagem, repetir o que já uma vez escrevi aqui, a teu respeito:

Eduardo Ribeiro é uma das duas ou três pessoas do meu convívio (e me vêm à idéia os incansáveis José Marques de Melo e Sérgio Gomes) que despertam em mim uma sensação de inveja. A saudável e a doentia. A inveja de que falo é a boa, aquela que, embora nominada como substantivo, tem sentido e natureza adjetival. O que significa dizer o seguinte: Eduardo Ribeiro é um sujeito invejável – exatamente o que quero dizer.

Mas quero também agradecer-te, Eduardo, por uma contribuição que o “Jornalistas&Cia” me vem dando há anos, como fonte de nutrição para as minhas buscas de um entendimento teórico e conceitual que dê conta das complexidades do Jornalismo e dos seus novos papéis neste nosso novo mundo de redes, fluxos e sujeitos falantes.

No “J&C”, tenho um recorte sempre atualizado sobre o que se passa no mundo da comunicação institucional, e de como o jornalismo definiu seu lugar próprio, como linguagem cada vez mais essencial, nos processos de comunicação que garantem às organizações (empresariais, políticas, econômicos, associativas, científicas, culturais etc., etc..) poder e identidade de sujeitos sociais discursivos, plenamente aptos para viver e sobreviver nos globalizados conflitos das relações sociais, na Era da Informação.

Trabalho, atualmente, numa consolidação teórica da minha proposta de “Revolução das Fontes”. Na roupagem nova que estou dando à proposta (já com musculatura de livro), coloco, entre as idéias centrais, a de que, entre os papéis novos já impostos ao Jornalismo pelas experiências comunicacionais da globalização está a de que lhe caberá a tarefa de cuidar bem da Notícia desde a sua origem.

Para garantir qualidade à informação jornalística oferecida à sociedade que se move no espaço imaterial dos fluxos, é indispensável que haja Jornalismo e jornalistas atuando na origem dos conteúdos noticiosos. Ainda que os cegos da tradicional arrogância jornalística não queiram vê-lo, isso (como você sabe e o “J&C” comprova a cada edição) faz parte da nova fisionomia do Jornalismo, por enquanto no plano da experiência - dimensão onde se produz a verdade essencial, como nos ensinou Pierce. Falta levar essa verdade para o universo acadêmnico e cultural dos conceitos, onde ainda se acredita que o Jornalismo continua limitado ao que existe e se faz nas redações.

Que coisa velha!

Você nem imagina como o seu e nosso “Jornalistas&Cia.” me tem ajudado nas buscas pelo estudo e pelo entendimento das novas fisionomias do Jornalismo. Por isso, muito obrigado, amigo Edu!

Grande abraço.

Carlos Chaparro


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