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O Saber de Quem Faz

  • Lembrando Aloysio Biondi

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Biondi olha e analisa
    o Brasil do seu tempo

    Na inauguração desta secção, acontece uma homenagem póstuma ao jornalista Aloysio Biondi, falecido a 21 de julho de 2000. Faz-se, aqui, a divulgação de uma entrevista concedida em setembro de 1992 por Biondi, para a dissertação de mestrado do jornalista e professor Armando Medeiros. Nessa entrevista, divulgada agora e aqui pela primeira vez em espaço jornalístico, ensinou Biondi, sobre Jornalismo na área de Economia:
    “Acho que está muito repetitivo. As pessoas nem checam. Hoje está cheio de chavões o pretenso pensamento econômico, de uma pretensa visão do momento brasileiro e as coisas se repetem. A sensação que você tem, lendo os artigos na diagonal, é que os artigos se baseiam em generalidades e são muito repetitivos. É raro você sair de um artigo achando que ele provocou alguma reflexão e mudou seu ponto de vista.”

     

    Aloysio Biondi olha e analisa o Brasil
    e o jornalismo do seu tempo

    (Entrevista concedida em setembro de 1992)

    Fiz esta entrevista para a dissertação “O jornalismo econômico e a cobertura sobre a privatização (1990/91)”, apresentada como requisito para obtenção de título de Mestre em Comunicação (área de concentração: Jornalismo), em 1994, junto a ECA/USP. O professor Jair Borin foi o meu orientador.

    Abordei dois temas: o tratamento da mídia ao programa de privatizações (acelerado durante o Governo Collor) e retrospectivamente (pensando em pesquisar melhor o assunto no Doutorado) fiz perguntas sobre o comportamento da imprensa durante o lançamento dos planos econômicos, os grandes pacotes que sacudiram a vida nacional.

    Foram duas horas de conversas gravadas. Ao encerrar a entrevista, Aloysio explicou que em sua trajetória profissional teve a postura de caminhar contra a maré. Mesmo no jornal Opinião, ou no governo Geisel, apostou nos assuntos “em si”, sem preconceitos e maniqueísmos, a despeito de visões consagradas pela esquerda.

    Sobre os autores que marcaram sua formação econômica afirmou:  “Para não mentir eu citaria Galbraith, o pessoal cepalino, Caio Prado Júnior, “A revolução brasileira”, Celso Furtado. Atualmente procuro acompanhar o mundo econômico muito mais através de artigos e ensaios do que livros propriamente”.

    A entrevista revela, além desse espírito inquieto por análises independentes, percepções muito acuradas. Sem receio de ser isolado como ranzinza e herético, o jornalista pronunciava profecias “malditas”  e ousava duvidar de dogmas. No caso de Biondi, a entrevista registra verdadeiras heresias – que se concretizariam  mais tarde – como o anúncio da derrocada do modelo vigente nos países chamados “Tigres Asiáticos”.

    Um abraço,
    Armando.

    ***************

    ALOYSIO BIONDI – SP, 22/09/92

    Tema 1 –  PRIVATIZAÇÕES

    TRATAMENTO DA IMRENSA AO TEMA PRIVATIZAÇÃO

    Por quê essa coisa da privatização é aceita garganta abaixo? Ora, pela direita, por motivos óbvios, era uma bandeira antiga. E a esquerda? Daí a nossa briga, já no tempo da ISTO É, em 1979, quando eu escrevia uma coluna e de vez em quando dava uma cutucada nos economistas. Sim, porque os economistas, basicamente os da UNICAMP, e particularmente os economistas de oposição, começaram já naquela época a demonstrar uma tendência que me alarmou. Começaram a entrar muito no “gap” tecnológico e no tal “bonde da história”.

    Quero registrar que nunca tive ligações partidárias, mas participei dos debates dos anos 70 – levantando temas como distribuição de renda, etc. – ao lado das bandeiras da oposição, Otávio Mangabeira e Maria da Conceição.

    No primeiro caso, a necessidade de modernizar era típica de uma visão do empresariado paulista, o industrial paulista. Por aí a esquerda, indiretamente, embarcou nesta canoa, por boas e nobres motivações. Do tipo: assumir a teoria de que só com desenvolvimento você teria uma evolução política plena e, possivelmente, chegaria ao socialismo. Achavam, também, que o operário especializado, bem remunerado, típico do ABC paulista, teria essa possibilidade de maturidade política. Daí, a oposição à Simonsen, por acharem que sua política recessiva iria destruir o sindicalismo incipiente que estava surgindo no ABC.

    Dois exemplos dramáticos dessa tendência. Um, o meu amigo Carlos Lessa que discutia o modelo, a dependência, o uso da crise do petróleo, distribuição de renda, problema cambial. Os economistas de esquerda não explicitavam que esse salto e a modernização iriam requerer mais arrocho. Só o Bresser veio expressar isto perto da “Nova República” dizendo que se os 40 milhões de brasileiros já esperaram até agora esperariam mais.

    Eu na grande imprensa realmente amenizava um pouco, mas no RELATÓRIO RESERVADO criticava e eles ficam “putos” comigo. Era um pouco aquela história do Delfim, do bolo… Em resumo, já desde o começo da década de 80 que os pensadores de esquerda…

    A direita sempre vivia repetindo e fazendo esta opção, através de Roberto Campos. Já a corrente nacionalista e a esquerda achavam que para se chegar ao socialismo o país precisava passar por um estágio de acumulação de capital. O Serra montou os programas sociais do Montoro, foi contra as frentes de trabalho. Ele e a Conceição diziam que este negócio de participação nos lucros era coisa de economia rica, que o capitalismo é acumulação de capital, que o empresariado tem de lucrar mesmo, usando o fundamento teórico da acumulação. Eu vejo, assim, a facilidade com que a sociedade aceitou a privatização.

    É inconcebível, desde os anos 50, 60, 70, Severo, Geisel, traçavam uma política de fortalecimento do desenvolvimento do país. Duas décadas acumuladas com a discussão sobre distribuição de renda e, de repente, tudo isto não conta mais. Só se fala na Thatcher, nos “Tigres Asiáticos” e se fala completamente errado.

    TENDÊNCIAS DO JORNALISMO

    A imprensa dá um tratamento absolutamente fragmentado na área da economia. Dá um fato e abandona, dá um fato e abandona. Exemplo disso: a queda da Bolsa de New York em 1989. Tinha subido 40% em pouco tempo e, lógico, deveria cair.

    No fundo, o que está por trás é uma concepção do jornalismo: só vale o que foge da “normalidade”. No caso dos “Tigres Asiáticos”, se você não acompanha perde a visão adequada. Ao longo do tempo a situação deles começou a se deteriorar. No DCI eu indicava: não vamos embarcar nessa desse jeito. Quanto a Thatcher, nós demos a queda dela um mês antes por acompanharmos a economia. E estas informações não chegavam aqui. Se você perguntar a qualquer empresário como está a economia inglesa ele vai dizer “tá meio mal”. Mas e no tempo da Thatcher? “Estava bem”.

    Eu escrevi um artigo em 1991 procurando tratar disso, lidando com exemplos fora da economia. Citei o caso dos incêndios dos poços de petróleo do Kuwait, quando falaram que demorariam anos para serem extintos. Eram 900 poços e os incêndios demorariam três, quatro, anos para serem apagados. Dali a três dias 200 poços incendiados já estavam sob controle. Eu era editor-geral e enchia o saco do editor de internacional. Faltava também informação: já se dispunha de materiais modernos para apagar incêndios.
    Foi como a crise de petróleo em 1979, quando se falou no esgotamento das reservas. Esqueceram do desenvolvimento de novas técnicas de exploração (fotografias de satélite, novos métodos de perfuração, novo material – ligas de aço – para as sondas etc). Quer dizer, se você não acompanha aí se perde totalmente.

    Um caso nosso, o

  • Cláudio Tognolli, o administrador de egos

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Cláudio Tognolli,
    o administrador de egos

    Cláudio Júlio Tognolli é um paulistano típico. Vive próximo à Avenida Paulista, sua fala é repleta de gírias e ele não troca por nada o corre-corre que é sua vida. Ele nos recebeu em seu apartamento numa rara tarde de folga. E disse, sem papas na língua: “Algumas pessoas falam que jornalismo investigativo é um pleonasmo, que a função da imprensa é investigar. Mas, perto dos lixos que a gente tem visto por aí, eu acho que tem de ser resgatado o termo jornalismo investigativo, porque as pessoas não investigam. Confundem muito essa história de copiar boletim de ocorrência e falar que aquilo é investigação, quando isso é uma grande mentira. Ou você vai atrás de fatos que a polícia vai investigar porque você apurou, ou você fica atrás da polícia. Então, o termo não era correto para uma geração acostumada à investigação. Hoje, não há investigação no dia-a-dia.”

     

    Esta entrevista com o jornalista e hoje também professor Cláudio Tognolli resultou de uma experiência acadêmica desenvolvida por mim, com alunos da ECA-USP, na disciplina “Conceitos em Gêneros do Jornalismo”, entre 2000 e 2002. É um texto que pode servir de referência sobre jornalismo de investigação aprofundada, tipo de jornalismo com o qual Tognolli continua a ter forte compromisso, tanto em suas atividades de repórter, quanto no seu trabalho de professor e pesquisador. Como repórter, escreve regularmenmte para oito revistas, entre as quais Galileo, Época, Flash e Consultor Jurídico (versão eletrônica); na vertente acadêmica, é doutor em Ciências da Comunicação e professor efetivo da ECA-USP. Leciona também da FIAM – Faculdades Integradas Alcântara Machado. Tem cinco livros publicados.

    Um defensor
    do Jornalismo Investigativo

    Cláudio Júlio Tognolli é um paulistano típico. Vive próximo à Avenida Paulista, sua fala é repleta de gírias e ele não troca por nada o corre-corre que é sua vida. Ele nos recebeu em seu apartamento numa rara tarde de folga. E disse, sem papas na língua: “Algumas pessoas falam que jornalismo investigativo é um pleonasmo, que a função da imprensa é investigar. Mas, perto dos lixos que a gente tem visto por aí, eu acho que tem de ser resgatado o termo jornalismo investigativo, porque as pessoas não investigam. Confundem muito essa história de copiar boletim de ocorrência e falar que aquilo é investigação, quando isso é uma grande mentira. Ou você vai atrás de fatos que a polícia vai investigar porque você apurou, ou você fica atrás da polícia. Então, o termo não era correto para uma geração acostumada à investigação. Hoje, não há investigação no dia-a-dia.”

    ***

    Ele já passou por grandes redações, como os jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, a rádio CBN e a revista Veja, sem contar os poucos meses que esteve estagiando na poderosa rede Globo. Não agüentou muito tempo: “Não quero ficar junto dessa gente”, explica. Hoje, ele leciona Jornalismo Investigativo na FIAM, trabalha na rádio Jovem Pan e escreve artigos para a Caros Amigos, muitos deles em parceria com o amigo José Arbex Jr, outro ex-aluno da ECA, com quem escreveu os livros O Século do Crime e Mundo Pós-moderno.

    Apaixonado por música, Tognolli foi parar no jornalismo porque era da ECA que vinham bandas como a Premeditando o Breque e a Arrigo Barnabé. Largou o RPM seis meses antes de a banda estourar, recusou um convite para tocar no Sepultura e uma das trinta guitarras da sua coleção pertenceu ao ídolo Jimmy Page, do Led Zeppelin. Mesmo assim, optou pelo jornalismo. “Mas eu sou muito encrenqueiro, irrequieto…”, analisa. Talvez por isso, sua principal área de atuação é o chamado jornalismo investigativo.
    E aí a paixão não é menos intensa. Em nome do jornalismo, Tognolli infiltrou-se em torcidas organizadas, teve de fumar crack e foi expulso de Cuba. É mesmo muito irrequieto.
    Tognolli fumou seu charuto ao longo das duas horas de entrevista, mostrou-nos orgulhoso sua coleção de guitarras e, nas inúmeras vezes em que seu telefone tocou, ele retirou-o do gancho para imediatamente o recolocar. Não importava quem fosse, ele estava concedendo uma entrevista, não a interromperia. Assim é Cláudio Tognolli. Um administrador de egos.

    Alessandra – A imprensa costuma nomeá-lo como repórter investigativo. O termo é correto?
    Cláudio Tognolli
    – Algumas pessoas falam que jornalismo investigativo é um pleonasmo, que a função da imprensa é investigar. Mas, perto dos lixos que a gente tem visto por aí, eu acho que tem de ser resgatado o termo jornalismo investigativo, porque as pessoas não investigam. Confundem muito essa história de copiar boletim de ocorrência e falar que aquilo é investigação, quando isso é uma grande mentira. Ou você vai atrás de fatos que a polícia vai investigar porque você apurou, ou você fica atrás da polícia. Então, o termo não era correto para uma geração acostumada à investigação. Hoje, não há investigação no dia-a-dia. Acho que a própria “distribuição” desse termo vai criar um conceito de investigação para as pessoas que estão indo para o mercado agora, porque ele está totalmente desaparecido.

    Fábio – Mas existe espaço para o jornalismo investigativo hoje, principalmente no diário?
    Tognolli
    – Existe, o que não existe são pessoas com disposição. Ninguém chega numa redação e diz: “não, hoje eu não vou cumprir a pauta, eu tenho algo melhor a oferecer”. Ninguém. Vou dar um exemplo. No dia em que aquele rapaz, o Mateus Meira, metralhou aquelas pessoas, eu, no ato, fui a um advogado que queria vender uma metralhadora melhor que a dele por mil dólares. A minha rádio não quis dar a matéria. Em vez de eu aceitar uma pauta e ir cumpri-la, eu sempre corro. A base da investigação é você dizer não para a pauta todo dia. Para isso, é claro, é preciso ter um pouco de experiência, mas já tem de ter essa consciência de dizer não.

    Alessandra – Como você se aproximou do jornalismo investigativo?
    Tognolli
    – Eu fui fazer pós, eu sou músico; eu tinha todo um background para não fazer isso. Podia escrever sobre tudo o que eu quisesse, pois eu me preparei para isso. Mas eu sou muito encrenqueiro, eu gosto de confusão, eu sou irrequieto. Acho que o meu comportamento tem a ver com esse tipo de coisa. Eu fui criado em periferia, então o meu comportamento já era esse. Eu era aluno da ECA, ainda, e fui bater na porta de rede Globo, falei: “olha, eu queria um estágio”; e me arrumaram um estágio. Isso foi em 83. Eu conversava muito com o Caco Barcellos, acho que foi por causa dele. Uma vez, eu perguntei para o Paulo Francis no elevador da Folha, em 88, qual era a palavra de que ele mais gostava na língua portuguesa. Ele me falou que era “assíria”. Entorpecência ou paralisia diante de certas pessoas ou situações. Aquela palavra conseguiu dar nome às emoções que eu sinto quando vou a um lugar onde há muito jornalista. Eu me vejo no meio daquilo, me dá arrepio, eu preciso correr sozinho, não quero ficar junto dessa gente. É um individualismo total, eu não quero. Eu não posso com esse tipo de coisa. Então, a forma que eu tenho de me ressaltar, de não ficar com essa história, de não ficar com cinqüenta jornalistas na porta de um lugar, é eu correr. Eu trabalho em casa, trabalho na hora que eu quiser, fora as aulas que eu tenho que dar. Eu vejo por onde eu posso angular diferentemente um assunto, e acho que o jornalismo investigativo nasce disso, de você não se conformar com a ordem do dia-a-dia. Eu não suporto ir a coletivas, essas coisas. Não suporto. Você sendo irrequieto, não querendo fazer o que todos fazem, você vai estar investigando por força do seu comportamento.

    “O pior babaca que há na imprensa é o que fala que foi ameaçado”

    Alessandra – A Internet facilitou o jornalismo investigativo?

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