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Em Jeito de Crônica

  • Saberes da Literatura

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Saberes da Literatura

    Mesmo quando não têm nome, como no caso de alguns livros de Saramago, os personagens dos romances têm o que falta aos protagonistas obscuros dos relatos burocráticos do jornalismo que renunciou às habilidades literárias: são gente.

     

    Temos por aí, no ofício,
    gente capaz de construir
    textos apenas com estatísticas…

    Mesmo quando sem nome, como no caso de alguns livros de Saramago, os personagens dos romances têm o que falta aos protagonistas obscuros dos relatos burocráticos do jornalismo que renunciou às habilidades literárias: são gente.

    Lembro-me de uma aula noturna em certa sexta-feira de outubro de 1998, quando o mundo lusófono vivia a euforia pela outorga do Prêmio Nobel de Literatura a um escritor de língua portuguesa. Propus aos alunos uma conversa sobre José Saramago. E foi emocionante ver, ouvir, sentir a alma em festa de boa parte dos jovens da classe. Não tanto por Saramago, do qual poucos haviam lido alguma coisa, mas pela exaltação da língua portuguesa que ao mundo se espalhou.

    Um dos alunos, olhos brilhando, falou mais alto: “Nada li dele até agora. Mas quando ouvi a notícia, foi como se eu também tivesse ganho o Prêmio Nobel, porque eu e o Saramago somos da mesma língua”. Falava por si próprio, mas sintetizava as falas e os silêncios do grupo.

    Saramago, o artista do léxico, o transgressor da sintaxe, é um criador de semânticas inesperadas, que incomodam tanto quanto encantam. E nos afazeres artísticos de dar formas de frase às muitas vidas que enxerga, usa o cinzel da palavra, o mais cortante de todos, afiadíssimo em suas mãos, para simulações da realidade que dão o que pensar. Ele não recria apenas o mundo; recria em cada obra a própria língua, dando-lhe, na dimensão escrita, usos e formas que só ele sabe dar, na arte de narrar, descrevendo, na arte de descrever, argumentando, e na arte de argumentar, narrando.

    No seu ofício de escritor, vejam só que habilidades e liberdades novas ele ensinou à vírgula: O cego e a cega descansavam agora, já separados, um ao lado do outro, mas continuavam de mãos dadas, eram novos, talvez fossem namorados, tinham ido ao cinema e ali cegaram, ou um acaso milagroso os juntou aqui, e, sendo assim, como foi que se reconheceram, ora essa, pelas vozes, claro está, não é só a voz do sangue que não precisa de olhos, o amor, que dizem ser cego, também tem a sua palavra a dizer.

    Das habilidades e liberdades das vírgulas não falei aos alunos, mas de alguns dos outros muitos recursos que a literatura pode emprestar ao jornalismo. Talvez o exemplo não esteja na passagem de José Saramago pelas redações. Na meia dúzia de resumos biográficos que li, pouco ou nada se fala da sua fase de jornalista. Parece que nem ele tem em bom apreço esses tempos. De qualquer forma, ainda bem que optou pela literatura, onde, sem renunciar, muito ao contrário, às idéias da própria identidade, pode, em dosagens livres, misturar a ficção à realidade para descarnar ou revestir os ossos do mundo em que vivemos.

    Como já tenho escrito, e acredito nisso, não há mais espaço nem tempo para o jornalismo romântico. O diletantismo de quem escreve, como de quem lê, foi banido pelo vigor tático e pela diversidade dos conflitos que alimentam o jornalismo e dele se alimentam. Ainda assim, considero uma tragédia a adesão dos jornalistas à burocracia do texto relatorial. Temos por aí, no ofício, gente capaz de construir textos apenas com estatísticas. Números, números, números, desconectados da vida, sem vínculos nem com os dramas nem com as alegrias do ser humano.

    Jornalismo sem sujeitos. Será jornalismo?

    ***

    A literatura é o mundo dos personagens, inventados para desconstruir, ou reconstruir, a história dos homens e das idéias. Por isso, bons livros são sempre projetos fascinantes, e digo-o mesmo sem saber como se escreve um bom romance. Não sou romancista. Desconfio que desgraçadamente jamais o serei. Mas sei que, mesmo quando não têm nome, como no caso dos cegos da cegueira branca inventada por Saramago,  os personagens dos romances têm o que falta aos protagonistas obscuros do jornalismo que renunciou às habilidades literárias: são gente.

    Têm a força, a poesia, as contradições e os dramas de seres humanos que vivem, e por isso sonham, amam, sofrem, iludem-se, desiludem-se, caminham, avançam, retornam, acreditam, desconfiam, têm medos, às vezes coragem. E conseguem manifestar isso com jeitos próprios de dizer.

    Já repararam como, no jornalismo impresso, todos os entrevistados falam do mesmo jeito, num estilo que é o próprio estilo do jornal? Esse é também um sintoma de uma grave doença que debilita os costumes jornalísticos de hoje: a falta de curiosidade.
    Sem perguntas ninguém alcança respostas. Nem escreve bons romances. Nem conquista um Prêmio Nobel. Por isso fiquei feliz quando, naquela aula de sexta-feira, alguns alunos decidiram ler José Saramago.

    Esperançoso, pensei: “Eles aprenderão a perguntar”.

  • Vida e vidas em frases

    Publicado por Carlos Chaparro em 25/02/2016

    Vida e vidas em frases

    José Saramago, o artista do léxico, o transgressor da sintaxe, é um criador de semânticas inesperadas, que incomodam tanto quanto encantam. E nos afazeres artísticos de dar formas de frase às muitas vidas que enxerga, usa o cinzel da palavra, o mais cortante de todos, afiadíssimo em suas mãos, para simulações da realidade que dão o que pensar.

     

    Os personagens da literatura
    têm o que falta aos obscuros protagonistas
    do jornalismo de hoje: são gente

    José Saramago, o artista do léxico, o transgressor da sintaxe, é um criador de semânticas inesperadas, que incomodam tanto quanto encantam. E nos afazeres artísticos de dar formas de frase às muitas vidas que enxerga, usa o cinzel da palavra, o mais cortante de todos, afiadíssimo em suas mãos, para simulações da realidade que dão o que pensar.

    Ele não recria apenas o mundo; recria em cada obra a própria língua, dando-lhe, na dimensão escrita, usos e formas que só ele sabe dar, na arte de narrar, descrevendo, na arte de descrever, argumentando, e na arte de argumentar, narrando.

    No seu ofício de escritor, vejam só que habilidades e liberdades novas ele ensinou à vírgula:

    “O cego e a cega descansavam agora, já separados, um ao lado do outro, mas continuavam de mãos dadas, eram novos, talvez fossem namorados, tinham ido ao cinema e ali cegaram, ou um acaso milagroso os juntou aqui, e, sendo assim, como foi que se reconheceram, ora essa, pelas vozes, claro está, não é só a voz do sangue que não precisa de olhos, o amor, que dizem ser cego, também tem a sua palavra a dizer.”

    Saramago chegou a ser jornalista. Mas, na meia dúzia de resumos biográficos que li, pouco ou nada se fala dessa fase. Parece que nem ele tem em bom apreço esses tempos. De qualquer forma, ainda bem que optou pela literatura, onde, sem renunciar, muito ao contrário, às idéias da própria identidade, pode, em dosagens livres, misturar a ficção à realidade para descarnar ou revestir os ossos do mundo em que vivemos.

    E porque gosto de ler Saramago, considero uma tragédia a adesão dos jornalistas à burocracia do texto relatorial. Temos, por aí, gente no ofício capaz de construir textos apenas com estatística. Números, números, números, desconectados da vida, sem vínculos nem com os dramas nem com as alegrias do ser humano.

    Jornalismo sem sujeitos.

    Pois deviam ler Saramago. E aprender, com ele, como a literatura é o mundo dos personagens, inventados para desconstruir, ou reconstruir, a história dos homens e das idéias. Por isso, bons livros são sempre projetos fascinantes, e digo-o mesmo sem saber como se escreve um bom romance. Não sou romancista. Desconfio que desgraçadamente jamais o serei. Mas sei que, mesmo quando não têm nome, como no caso dos cegos da cegueira branca e em outras histórias inventadas por Saramago,  os personagens dos romances têm o que falta aos protagonistas obscuros do jornalismo que renunciou às habilidades literárias: são gente.

    Têm a força, a poesia, as contradições e os dramas de seres humanos que vivem, e por isso sonham, amam, sofrem, iludem-se, desiludem-se, caminham, avançam, retornam, acreditam, desconfiam, têm medos, às vezes coragem. E manifestam isso com jeitos próprios de dizer.

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    Já repararam como, no jornalismo impresso, todos os entrevistados falam do mesmo jeito, num estilo que é o próprio estilo do jornal?

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    NOTA DO EDITOR:

    Nas próximas três semanas estarei em viagem pelo exterior. A primeira semana, toda ela, será passada em Cabo Verde, aonde vou para ajudar amigos a pensar um novo jornal, nesse jovem país africano, terra de Amilcar Cabral e Cesária Évora. De lá, e de onde por mais andar, mandarei crônicas sobre o que a emoção escolher.

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